UM CRIME ETERNAMENTE MAL RESOLVIDO

A reportagem Ombre sul Giallo – Pier Paolo Pasolini sapeva troppo (2005), realizada pelo programa Primo Piano, da Rai, faz um boa revisão das circunstâncias do assassinato de Pasolini. Franca Leosini comenta as razões que levaram Pelosi a mudar sua versão do crime trinta anos depois de confessar ter sido o único assassino de Pasolini: ele não teria matado o escritor, apenas assumido a culpa disso por estar aterrorizado pelas ameaças dos verdadeiros assassinos que ele não conhecia, e chegaram de repente no local do crime, imobilizando-o enquanto matavam o escritor. Não abrira antes a boca porque os assassinos ameaçavam matar seus pais, que agora estavam mortos, e os assassinos hoje se vivos estariam muito velhos.

O advogado Nino Marazzita vê a possibilidade de se reabrir o processo junto à Procuradoria de Roma diante dos novos depoimentos, mas alerta para o caráter mentiroso do reincidente Pelosi, que ele conhecia bem. Ele destaca o caráter político do crime: “Pasolini era a consciência crítica da Itália”. Em entrevista a Maria Mangari, realizada pouco antes de sua morte, Sergio Citti também contesta a nova confissão de Pelosi. Segundo Citti, Pelosi conhecia os assassinos, ou pelo menos um deles, chamado Sergio, pois frequentavam o mesmo bar. Pelosi teria servido de isca para atrair Pasolini para o Idroscalo de Ostia, participando nessa condição da conspiração dos mesmos fascistas que haviam então roubado as bobinas de Salò, e que vinham ameaçando o cineasta de morte.

Interessante também neste programa é a reportagem editada por Alberto Prizzi registrando a visita do jornalista Roberto Scardova ao Museu de Criminologia de Roma, onde se encontram preservados, dentro de uma grande caixa de papelão meio esfarrapada de número 3257-C, todos os objetos pertencentes ou não a Pasolini encontrados no local do crime: a tabuleta partida ao meio e os pedaços de pau com os quais ele foi espancado; carteiras com documentos e fotos pessais; os óculos escuros que ele sempre usava; a camisa que vestia naquela noite, e que ficou toda empapada de sangue – sangue agora ressecado, mas nem por isso menos perturbador (ao tocá-la, Scardova visivelmente se emociona); os livros que estava lendo; e um pullover verde, encontrado no carro, e que não pertencia nem a Pasolini nem a Pelosi…

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ROMA, SEUS GATOS E SEUS ARTISTAS

Domenico Persiani em seu maravilhoso jardim de cerâmica.

26 de dezembro de 1993

Tomo um comprimido para dormir no avião que me leva a Israel, com escala em Roma, onde descemos para um pequeno tour. Guardando a estranha sensação de sono quimicamente induzido, passeio pela “cidade eterna” como um sonâmbulo. Faz frio. De dentro do ônibus, avisto a única pirâmide da Europa, o Coliseu, as Termas de Caracala, a Igreja Santa Maria a Maior, a primeira muralha de Roma ao fundo da Stazione Termine, as Termas de Diocleciano transformadas numa igreja. Caminho pela Via Nationale, até o Monumento de Victor Emmanuel, e subo ao Quirinal. Observo com tristeza a coleta semanal das moedas atiradas na Fontana de Trevi, destinadas à caridade: ainda não vi a Fontana jorrando. Sigo pela Via del Corso, velha de dois mil anos, até o Templo de Adriano, hoje ocupado por escritórios. Finalmente, descubro o Pantheon.

O Pantheon era um templo pagão, até o século V, quando Júpiter, Zeus, Minerva e todos os outros deuses tiveram suas estátuas destruídas. No vazio do pantheon (“todos os deuses”) foram erigidos os altares cristãos da igreja Santa Maria dos Mártires. O buraco da cúpula, que permitia a saída do fumo do fogo sagrado, única abertura além da porta desse templo sem janelas, perdeu sua função primordial. Podemos admirar, porém, esta que é considerada a primeira cúpula do mundo, com 42 metros de altura por 42 de diâmetro, num edifício todo redondo, com paredes de doze metros de espessura. O nome de seu arquiteto não chegou à posteridade. Mas continuamos a nos maravilhar com o chão de mármore, as colunas originais e as portas de bronze – cada qual pesando dez toneladas.

Depois de passar pela Praça da Rotonda, onde se hospedou, em 1513, no número 1.348, o poeta Ludovico Ariosto, ganho a Praça Navonna, construída no lugar de um antigo hipódromo, cuja forma característica ela conservou. Por trás dessa praça que Ela Morante considerava a mais bela do mundo, “a praça central do universo”, ainda podemos ver as ruínas do hipódromo. As quatro figuras da fonte representam os quatro maiores rios então conhecido: o Nilo, o Danúbio, o Ganges e o Rio do Prata. A Praça Navonna ignorava o Amazonas, mas hoje abriga a Embaixada Brasileira.

Atravesso a ponte Cavour e chego à Tumba de Adriano, em torno da qual foi construída a fortaleza do Castelo de Sant’Angelo, em 1472. Pela Via della Conziliazione, alcanço a Praça San Pietro, ainda com sua decoração natalina. No jardim dos Museus do Vaticano, observo melhor e consigo apreciar a Sfera con Sfera (1990) de Arnaldo Pomodoro. Da primeira vez que vi essa escultura no pátio do Vaticano sua modernidade me pareceu agredir a atmosfera daquele mundo antigo, fazendo o mesmo efeito que a Pirâmide de vidro no Museu do Louvre. Ainda reluto em aceitar esses mistifórios, esses mesclados, essas mixórdias arquitetônicas que agradam tanto os contemporâneos.

Apesar do frio, o céu está profundamente azul. Diante da Pietà, comovo-me novamente até as lágrimas. Alguns anos atrás, um louco destruiu a marteladas o rosto da Virgem. Desde então, a Pietà, restaurada, só pode ser vista através de um vidro protetor. Michelangelo a esculpiu aos 24 anos, e recebeu muitas críticas pelo fato de ter representado Nossa Senhora tão jovem, quando Cristo teria morrido aos 33 anos. A resposta de Michelangelo foi sublime: ela é jovem e bela porque é assim, sempre bela e jovem, que um filho vê a sua mãe.

Desta vez, vi também a famosa estátua de São Pedro, atribuída ao escultor Arnolfo di Cambio, do século XIII: feita de bronze, os dedos de seus pés foram pouco a pouco consumidos pelos beijos e carícias dos fiéis, em  800 anos de veneração. O que é formidável nesta catedral arquitetada por Michelangelo é que, dedicada a São Pedro, nela tudo é de pedra: não há em suas paresdes nenhuma pintura, apenas mosaicos gigantescos com as sete cores do arco-íris multiplicadas em quatro mil tons, de modo a produzir 28 mil nuances de cores: imaginamos ver telas pintadas a óleo, mas tudo é mosaico de pedra colorida…

 

Os pés gastos de São Pedro em bronze atribuído a Arnolfo di Cambio, do século XIII.

20 de janeiro de 1994

Depois de um mês passado em Israel, volto a Roma para um mês de passeios e descobertas. Assim que me encontro livre, telefono a Dacia Maraini. A secretária eletrônica pede recados em italiano e inglês. Começo a falar num italiano horrível. Mas assim que digo meu nome, Dacia tira o fone do gancho e me saúda com sua voz decidida. Tem um compromisso no dia seguinte, e hoje vai ao teatro. Como vou depois de amanhã a Pompéia, decidimos nos encontrar no Teatro Argentina logo mais às 20h45.

Chego meia hora antes da hora marcada e espero mais que o necessário: às 20h45 vejo Dacia, sempre pontual, aproximar-se com passos firmes. Um amigo a trouxe de carro e foi estacionar nas proximidades. Beijamo-nos e, antes de qualquer palavra, ela corre até a bilheteria para trocar os convites por ingressos. Esperamos seu amigo e nos separamos: sem ingresso marcado, tenho que ficar à espreita de um lugar vazio até as luzes se apagarem. Passo a observar a arquitetura do teatro. O prédio parece moderno, mas sua fachada branca é, na verdade, uma construção posterior, que recobre o teatro original.

O interior do Teatro Argentina é uma estrutura oval barroca, do século XVIII. Os pequenos balcões retangulares obrigam os espectadores a se debruçarem nos postigos, como nas varandas de um prédio. O teto redondo, com desenhos em tons esverdeados, contrasta com o veludo vermelho que recobre as paredes e as poltronas. De qualquer lugar da platéia tem-se uma boa visão do palco. Quando as luzes se apagam e começo a ouvir as vozes dos atores, dou-me conta de que nada entendo de Le baruffe chiozzotte, de Carlo Goldoni, em montagem de Giorgio Strehler, passada entre os pescadores de Chioggia, e escrita no dialeto daquela região.

Dacia tranqüiliza-me: tampouco a platéia romana entende o dialeto em que os diálogos foram escritos! De fato, observei que muitos espectadores dormiam nas poltronas: só acordaram ao final, para aplaudir com entusiasmo… Assim que termina a peça, Dacia me arrasta até o camarim: ela quer cumprimentar a estrela, sua amiga. É uma bela mulher, ainda tirando suas roupas de cena e vestindo um roupão azul, uma estrela sem estrelismo, simpática e sorridente, que havia reservado nossos dois ingressos.

Pompéia

Um domingo triste, vazio, como deve ser sempre em Roma os domingos de inverno. Entro no ônibus quase vazio da excursão que me leva a Pompéia. De hotel em hotel, o italianinho da agência caminha pacientemente à cata de turistas. O gordo motorista o espera, e nós com ele. No fim, nenhum turista foi recolhido. O motorista comenta decepcionado: “Quatto gatti! Quattro gatti e mezzo!” (“Quatro gatos! Quatro gatos e meio!”). Quem de nós seria o “meio” gato? O italianinho? Eu?

Passamos por Monte Cassino, antigo mosteiro medieval de estudos escolásticos, destruído na Segunda Guerra – a Batalha de Monte Cassino durou oito meses e consumiu a vida de 25 mil soldados aliados. Passamos também por Nápoles, sem parar, apenas vislumbrando filas de roupas nas janelas, casas coloridas e jovens musculosos correndo na orla da praia. No cemitério da cidade – revelou o guia – está enterrado o grande Caruso. A cidade possui o segundo melhor museu de arqueologia da Europa, depois do British Museum.

Pode-se subir pelo Vesúvio de automóvel até mil metros de altura. Sua lava é rica em minérios e favoreceu a cultura de laranjas, limões e uvas – o Lacrima Christi é da região. O Vesúvio destruiu três cidades no ano de 79: Pompéia, então com 22 mil habitantes; Herculano, com 5 mil habitantes; e Castelamare, a menor das três. As lavas caíram durante três dias e três noites, deixando as três cidades cobertas por uma camada de três a quatro metros de cinzas.

O Vesúvio permanece ativo, assim como o Etna: sua última erupção deu-se em 1944. Algumas obras-primas foram encontradas nas escavações: o Dicionário achado em 1961 em Herculano; o Cepolo lampadofono em bronze descoberto em 1977 na casa de Caio Gilio Polibio. As escavações das cidades soterradas começaram em 1748 e nunca terminaram. Cerca de 1/3 da cidade intramuros não foi ainda escavado. Muitos amuletos fálicos e lâmpadas fálicas e tintinabolas ainda serão encontradas. Como bem escreveu Goethe sobre Pompéia e Herculano, “de todas as catástrofes que se abateram sobre o mundo, nenhuma provocou tanta alegria às gerações seguintes.”

Palestrina

Palestrina: Templo da Fortuna Primigenia e Palácio Barberini.

Desejando também conhecer Palestrina, tomo um ônibus – caindo aos pedaços – e chego encantado na pequena cidade toda cor de terra. No Museu Arqueológico Prenestino admiro o lindo mosaico do Nilo, e os interiores afrescados do magnífico palácio, de onde se tem uma deslumbrante visão de toda a aldeia, que na época romana era um gigantesco santuário dedicado a Fortuna Primigenia. O nome da aldeia vem de seu mais ilustre habitante: Pierluigi da Palestrina, criador da música polifônica da Renascença, e cuja casa ainda pode ser visitada. Palestrina foi freqüentada por Thomas Mann e Heinrich Mann; suas casas encontram-se perto da praça central, numa ladeira cheia de vasos de flores. Alguns de seus romances têm a cidade como cenário.

De volta a Roma

De volta a Roma, passo a manhã no Vaticano. A missa é celebrada pelo papa João Paulo II, que me pareceu cansado e doente, apoiando-se sempre num bastão, a cabeça baixa e o peso do mundo sobre as costas. Pregou uma peregrinação de joelhos até a Bósnia – onde a “limpeza étnica” matou cerca de 300 mil pessoas, e 60 mil mulheres foram violadas em nome da “grande Sérvia”. A cerimônia é lenta e arrastada: deixo a catedral antes do término da missa.

Acompanho o Festival de Cinema Fantástico e vejo Things to come (1936), de William Cameron Menzies, escrito por H. G. Wells: o filme apresenta uma visão extraordinária da sociedade devastada por uma guerra mundial, seguida de uma epidemia de “febre errante”, que dizima metade da raça humana. Em Metropolia, um ditador governa com mãos de ferro e manda fuzilar todos os que apresentam os sintomas da doença. Os homens de ciência unem-se e planejam tomar o poder, estabelecendo um governo mundial único, baseado na lei, contra as guerras fratricidas produzidas por ditadores nacionalistas tribais. Os cientistas-governantes imaginam um mundo futuro de ordem e paz.

It Came from Beneath the Sea (1955), de Robert Gordon: típico exemplar de science-fiction dos anos de 1950, com polvo gigante, cientistas em ilha isolada, militares convocados para destruir o monstro. Os efeitos especiais são assinados por Ray Harryhausen.

Tormented (1960), de Robert Gordon: um pianista de jazz é procurado pela ex-amante, que se opõe a seu casamento com uma jovem despreocupada, a quem ele ama de verdade. O casal briga no alto de um farol, a megera despenca, e o rapaz nem tenta salvá-la. Mais tarde, os seus remorsos são acompanhados do aparecimento do fantasma da mulher. Uma cega pressente acontecimentos funestos. O pianista torna-se um assassino compulsivo, a ponto de quase matar a irmãzinha da noiva, que o tem por seu melhor amigo. A grande cena do filme: durante a cerimônia religiosa de casamento, a mulher fantasma penetra na igreja e faz murchar todas as flores que a ornamentam, incluindo o buquê que a noiva tem nas mãos.

26 de janeiro de 1994

Leio nos jornais romanos a denúncia de Leonard Cole ao New York Time: milhões de cidadãos americanos teriam sido submetidos, há 20 anos, a bombardeios bactereológicos ordenados por autoridades militares, a título experimental. Lampadinhas carregadas de bactérias teriam sido lançadas no metrô de Nova York no momento de maior concentração de passageiros, e no aeroporto de Washington uma valise com ventiladores internos teria espalhado bactérias na sala de espera. Desejava-se conhecer os efeitos de um ataque bactereológico sobre massas em movimento. Descobriu-se que alguns dos passageiros morreram depois da experiência…

Há um sintoma neoprimitivo no ar: os novos selvagens do conglomerado sentem falta dos dinossauros! É o que me ocorre ao visitar I Dinossauri, a exposição oficial de Jurassic Park, na Stazione Termini. Numa réplica do Parque dos Dinossauros montada num amplo espaço, encontram-se os bonecos monstruosos que serviram para algumas cenas do filme. Vejo também um dos mais antigos ovos de dinossauro encontrados no hemisfério norte, o único sobrevivente entre doze mil ossadas de dinossauros de Cleveland Lloyd, e que chegou até nós por ter quebrado dentro do útero da fêmea, fossilizando-se. Ao que tudo indica, trata-se de um ovo de allossauro, uma vez que 85% das ossadas ali encontradas eram de allossauros. Havia também muitos cristais com insetos e barbatanas de estegossáurios. Só me interessava, contudo, ver os storyboards originais do filme de Steven Spielberg. Parece que os organizadores não  acreditaram muito em suas atrações, pois instalaram pelos cantos outros objetos que pouco tinham a ver com o filme…

Aqui, por exemplo, uma balança cósmica: descubro que estou pesando 80 quilos na Terra; 96 em Netuno; 204 em Júpiter; 72 em Venus; 64 em Urano; 96 em Netuno. Acolá, o relógio mais preciso do mundo, o HP 5071 A, da Hewlett-Packard, à base de Cesio 133, com nove bilhões de oscilações por segundo, com um máximo de 1 segundo de erro a cada milhão e seiscentos mil anos. Aproveito para acertar meu relógio. À saída da exposição, entre as 17 e as 18 horas, milhões de pássaros saúdam os que chegam e partem de Roma. É um espetáculo mágico, que faz todos os pedestres olharem para o céu, surpresos, receosos, maravilhados. A lembrança de Os pássaros, de Hitchcock, é inevitável.

Roma e suas contradições: o padre Tonino Lasconi, autor do livro La TV è buona (“A TV é boa”), declarou que “a televisão faz bem à alma, aproxima o homem de Deus”, recomendando aos fiéis assistir à TV para se aproximarem do Senhor. Logo depois, o Papa veio a público pedir aos fiéis que “desliguem a TV” devido às suas transmissões pornográficas e violentas. Causa também muita celeuma o novo anúncio da Benetton, no qual uma noviça belíssima beija na boca um jovem padre, igualmente belíssimo.

Há 14 Portas em Roma. E tudo, nessa cidade, leva uma cruz: não apenas as catedrais, igrejas e monumentos católicos, mas também os templos e edifícios – do Coliseu ao obelisco egípcio – que um dia foram pagãos. Foi Constantino, o Grande, o primeiro imperador católico, quem iniciou essa cristianização das pedras de Roma.

Chego ao Castelo de Sant’Angelo, onde há belíssimos afrescos nas salas, na biblioteca, nos quartos construídos em torno da tumba de Adriano. O quarto de Cagliostro está fechado, mas é possível ver as paredes decoradas da sala de banho. Sigo para a Vila Borghese e percorro todo o jardim: do Museu Borghese à Villa Giulia, da Piazza de Siena à Villa Medici. Fotografo os bustos vandalizados da Via dei Bambini: é como penetrar num terreno perigoso – o da dessacralização fascista. O mal impregna esse jardim.

Roma possui quatro catedrais: São João, São Pedro, São Paulo fora das Portas e Santa Maria Mayor. Esta, construída no século IV, possui uma Porta Santa que só abre a cada 25 anos. Nela está a tumba (bastante simples) de Bernini. Seguindo a forma retangular das igrejas da época, ela tem 40 colunas de diferentes templos antigos. O teto, do século XIV, é de madeira dourada. Uma das capelas foi projetada por Michelangelo. Alguns papas (como Clemente IX) foram aí enterrados – hoje todos devem ser enterrados no Vaticano.

Na Escalera Santa, a escada de mármore, de 28 degraus, que foi trazida de Jerusalém no ano de 326, por ordem de Santa Helena, mãe do imperador Constantino, morta em 335. Por ele só pode ser subida de joelhos, uma vez que por ela – segundo a tradição – teria subido e descido Jesus Cristo para entrevistar-se com Pôncio Pilatos no dia de sua condenação à morte. Visito também a capela Sancta Sanctorum, que serviu aos papas medievais como oratório privado e arquivo secreto de preciosos documentos, e onde um famoso ícone aqueropita pode ser venerado.

Passo pelos muros de Aureliano, do século III; pelo palácio residencial dos papas; e pelo prédio onde se reuniu o Concílio de Latrão; chego, finalmente, à Basílica de São João de Latrão, que também possui uma Porta Santa. Passeio, depois, pelas Termas de Caracala, onde até 1.600 pessoas podiam banhar-se, e que hoje serve de palco magnífico para encenações operísticas.

Tomo a Via Appia, a mais importante estrada consular, construída por Claudius, e passo pela Igreja Quo Vadis – onde São Pedro teria cruzado com Jesus Cristo – que jamais esteve em Roma – e perguntado ao Senhor: “Quo Vadis Domini?”, chegando às Catacumbas de São Calixto, uma das maiores da cristandade, com 20 km de escavações: um verdadeiro labirinto de tumbas. Das 50 catacumbas conhecidas, apenas quatro podem ser visitadas. Nestas, há criptas de papas do século III, o túmulo de Santa Sicília, tumbas feitas com lava vulcânica. Ricos e pobres recebiam o mesmo tipo de cova, mas algumas tumbas são mais decoradas, com afrescos e lâmpadas a óleo. Como se respirava nesses corredores de terra sem ventilação e cheirando a corpos em decomposição?

Exposta no pórtico da Igreja S. Maria in Cosmedin, encontra-se a Bocca della Verità, um solar e faunesco rosto de pedra de 1,66 m de altura, ao qual a crendice popular atribuiu propriedade de morder a mãos dos mentirosos e dos adúlteros. Essa boca assusta, sobretudo, as meninas, que choram e se recusam a colocar suas mãos dentro do buraco horrível. Depois de traumatizá-las, os pais as tranqüilizam mostrando que nada pode acontecer-lhes: elas então criam coragem e enfiam a mão no buraco.

Sem mais bloqueios, as crianças agora introduzem as mãos não apenas na boca, como também nos olhos e no nariz do “monstro”, e voltam mais uma vez, sorrindo, para enfiar de novo as mãos na carantonha. O “monstro” não as assusta mais! Foi desmistificado pelo discurso racional e burguês de seus pais. Mesmo assim, a Boca aberta mantém seu simbolismo dos ritos de passagem. Ali testam seus desejos todos os casais, dos mais jovens aos mais velhos, dos mais fíéis aos mais cínicos: uma nostalgia do paganismo que sobrevive em camadas profundas das mentes italianas. E a Bocca della Verità é uma fissura misteriosa e sempre aberta entre o presente e o passado.

O jardim de Domenico Persiani

O jardim de cerâmica de Domenico Persiani.

Caminhando pela Piazza della Republica, entrando numa galeria que sai na Via Torino, encontro, no número 92, o Giardino di Domenico Persiani. É um espaço mágico, no centro do tráfego romano: vasos, máscaras, borboletas, esculturas, pilastras, fontes, bustos, os mais belos trabalhos de terracota e cerâmica empilhados num arranjo cuidadosamente descuidado. Muitos desses tesouros artesanais estão mergulhados em água, numa atmosfera de doce decadência. Domenico Persiani trabalha no canto esquerdo do jardim, numa pequena oficina, e recebe-me com as mãos sujas de barro. Estava ali, como sempre, produzindo suas maravilhas, destinadas aos poucos privilegiados que descobrem seu jardim, por acaso. Não posso comprar senão duas borboletas de cerâmica coloridas. Mas é o bastante para que me lembrem para sempre de Domenico, com suas mãos sujas, sorrindo timidamente em seu jardim de sonhos de barro, constantemente molhado de chuva, e banhado de sol.

Os azuis e rosas de Giulio Gorga

Giulio Gorga, um dos tantos artistas interessantes de Roma, expunha suas telas na galeria de arte La Borgogna, na Via del Corso. Ali reina a carismática Signora Giulia De Lipsis Granati, sob dois centauros de De Chirico – uma das belas aquarelas que enriquecem sua sala de diretora. Ela recebeu, em 1992, no Campidoglio, o prêmio Donna nella Cultura, por expor, desde 1963, mostras de artistas das vanguardas históricas européias, como De Pisis, De Chirico, Richter, Vasarely, Morandi, Dubuffet, Masson, Rotella, Picasso, Minguzzi e Jean Cocteau, que ainda são os nomes que contam para a arte contemporânea. Gorga segue essa tradição. Nascido em Roccagorga, em 1946, trabalha e vive desde 1966 na capital italiana. Aluno de Max Pfeiffer Watenphul, docente da Bauhaus, expôs suas obras na Alemanha, na Holanda, na França, na Iugoslávia e em diversas cidades italianas.

Giulio Gorga é um apaixonado pela cultura da Magna Grécia, e maturou sua pintura a partir de outra atividade à qual dedicou e continua a dedicar boa parte de seu tempo: a restauração de vasos gregos e etruscos. De Kiatos, Kilikes e Kantharos tomou a inspiração dos símbolos primordiais da humanidade, assim como das expressões sardônicas das cabeças de seus jovens de rosto anguloso, que lembram figuras de Modigliani. A arte de Gorga exprime, através de suas formas primitivas e de suas cores vibrantes, uma alegria vital, celebrando a vida com meios aparentemente simples, que pressupõem, contudo, uma profunda erudição de historiador da arte e técnico em restauro.

Gorga restaurou centenas de esculturas gregas. Impressionou-se com as cores vivas das pequenas estátuas de Tanagra, que eram bastante populares e por isso cultivavam uma beleza simples, próxima da vida. Foi dessas pequenas figuras coloridas que Gorga tirou o seu rosa e o seu azul, suas cores prediletas, e que procura aproximar ao máximo dos tons das peças arqueológicas. Gorga também reinterpretou os símbolos da iconografia antiga e redescobriu o primeiro signo com o qual os gregos primitivos designavam o homem. A partir desse símbolo, criou quadros codificados, onde o signo é, ao mesmo tempo, imagem e mensagem. Gorga explicou-me alguns dos significados expressos em suas telas: este é um homem agachado, agradecendo o dom da vida; aquele é um homem que segura uma arma, o protótipo do guerreiro; aquele outro, em contraposição, é o homem de gesto gracioso, que segura um ramo de folhas que pode significar a paz.

Além desses quadros inspirados na cultura grega primitiva, Giulio Gorga experimentou recriar naturezas mortas, retratos e outros temas da pintura clássica. Uma de suas inovações está na visão das coisas que pinta. Se o tradicional permanece nos retratos de seus amigos e conhecidos, que capturam uma expressão real, o enquadramento é quebrado quando a figura retratada é imaginária. Então, Gorga prefere uma perspectiva e um enquadramento mais agressivos, que restringem e limitam para o espectador curioso a visão daquilo que sonhou: cortando um pedaço da cabeça de seus efebos ou cobrindo parte da paisagem pintada com molduras estreitas, Gorga só nos deixa entrever o que sua imaginação trabalhou. Essa agressividade é um traço novo, e não podemos dizer que direção vai tomar: a arte de Giulio Gorga está em plena evolução. Seus quadros são cotados a uma média de dois milhões de liras – um vestido Escada ou um terno Armani custam mais. Mas quem compra um quadro de Gorga não segue a moda; investe num artista que renova nossa visão do mundo antigo, banhada na nostalgia da Magna Grécia, da alegria vital que era a essência mesma da existência terrena, num mundo que desconhecia todas as formas da poluição.

A ambígüa Guglielmina Otter

Entrando no belo Palazzo Ruspoli, na Piazza San Lorenzo in Lucina, em meio às salas lindamente afrescadas, descobri fotografias de grande força pictórica na mostra A ambigüidade posta em foco. Quis conhecer a artista: era Guglielmina Otter, que reunia trabalhos que ela desenvolveu nos últimos dez anos. A exposição estava dividida em três sessões: “Objetos e Fábulas”, com fotografias que recriavam mitologias a partir de bonecas, bolas, fitas e flores secas imersas em vidros, vasos e outros objetos cotidianos e arqueológicos, com forte sugestão erótica; “Poetas e Escritores”, que realizava um inventário fotográfico dos nomes mais expressivos da literatura italiana contemporânea, capturando de cada um a expressão mais expressiva, junto a poemas dos autores, dedicados à mostra; e “Três Aquarelas”, pinturas que seguiam o fio condutor da ambigüidade, que a artista valorizava, e que já prenunciavam sua próxima mostra, “O Res Mirabilis”, dedicada à pintura e às artes gráficas.

Guglielmina Otter explicou-me que a tiragem de suas fotografias é rigorosamente limitada a sete cópias, além de duas que permanecem com ela. Começou a fotografar há dez anos, mas foi nos últimos cinco que essa atividade tornou-se mais intensa em sua vida. Suas imagens possuem uma luminosidade rara e destacam-se da realidade por um gosto pelo maravilhoso, pelo simbólico, pelo mítico. Nada é claro nas imagens que cria, mesmo quando o branco-e-preto e o uso de bonecas parecem dar à cena um caráter infantil e didático. Na verdade, o que poderia ser uma mensagem esquemática é habilmente transfigurado pela presença constante dos reflexos, que tornam a obviedade impossível. Espelhos, vidros, cristais e outras superfícies lisas e brilhantes retiram o sentido claro das coisas e introduzem esse universo de ambigüidades que Guglielmina Otter celebra. Mesmo os símbolos sexuais tornam-se dúbios: uma imagem fálica feita com uma vela e três bolas deixa de ser uma imagem fálica ao evocar algo de mais monstruoso e surreal. A esse estranho erotismo das coisas Otter soma certa atração mórbida pelo úmido, fanado, encharcado ou ressequido, compondo “naturezas mortas”. Nesse sentido, considero sua fotografia Simulazione (“Simulações”), por sua cor, luz e mistério, sua obra-prima.

A sessão de A ambigüidade posta em foco que mais me tocou foi a dos retratos dos autores italianos de hoje, todos tirados em preto-e-branco, que Guglielmina Otter fez nos últimos nove meses, com luz natural ou mista, em momentos de espontaneidade, preferencialmente sem pose. Esta foi, segundo Guglielmina, uma aventura em que se lançou, pois não conhecia pessoalmente nenhum dos autores fotografados quando decidiu retratá-los. Cada encontro constituiu um momento mágico, o nascimento de uma amizade, e os escritores partilharam de sua aventura, respondendo com verdadeiro entusiasmo à requisição de um poema que acompanhasse a imagem, presenteando-a ora com uma página inédita, ora com um texto já editado mas que acreditavam combinar perfeitamente com aquele momento ou com a expressão de si mesmos. Até um simples verso inédito de Luigi Malerba, dedicado à mostra, assume o caráter de uma dádiva: “Não há ninguém disposto a não saber demais”. O poema de Giuseppe Conte, Foglia (“Folha”) também é um bom exemplo:

Você sabe o que é uma folha

Sabe de onde vem

Conhece as suas veias

escarpadas e estreladas?

Sabe que uma folha pode

assemelhar-se a uma mão

a um céu vago e distante

de onde chovem meteoros?

O poeta, fixado pelas lentes de Guglielmina Otter, mira-nos de frente, e seus olhos escuros, negros, parecem interrogar-nos com uma inquieta amargura: “Você sabe o que é uma folha?”, como que acabado de sair de uma experiência metafísica, de um mergulho prolongado na folha, percorrendo desde sua haste até suas nervuras, carregando agora segredos maravilhosos e horripilantes que nossa existência cotidiana, alienada, desconhece, pois costumamos passar, indiferentes, por cima das nuances e dos pressentimentos, da beleza e do horror insondáveis da natureza. Outra perfeita simbiose entre retrato e poema ocorre com Valentino Zeichen, com seus versos inéditos Esecuzione (“Execução”):

Repetidos gatilhos, flash,

rajadas que evocam

armas automáticas,

agonias abreviadas

e mortes instantâneas.

Disparam o clic

da arma fotográfica

e trata de permanecer morto

na imortalidade,

conservando intacta semelhança.

Como por acaso, Guglielmina Otter fotografou Valentino Zeichen como se o executasse: a parede diante da qual ele se encontra está coberta por uma tinta que respinga, como se manchada de sangue… Sua expressão é de séria atenção: como se esperasse, resignado, o próximo disparo da câmera assassina. Apenas mais um exemplo: Dacia Maraini comparece com um poema também inédito intitulado Le tue mani (“As tuas mãos”):

As tuas mãos de fantasma

macias e peludas

os teus olhos engolidos de sono

os teus cílios mais negros

que uma noite sem estrelas

os teus pés cavalares…

Vi-te entrar pela janela

numa manhã de tempestade

mas depois te perdi de vista.

Em que gaveta da memória

te escondeste

meu pequeno amor morto?

No retrato que dela fez Guglielmina Otter, eis que Dacia Maraini está mesmo olhando para o alto, à esquerda, como a lembrar-se de um Alberto Moravia de pés alados e cavalares, entrando por uma misteriosa janela do passado, para imediatamente fugir de vista, deixando uma terna saudade. Retratos de escritores e poetas por artistas da fotografia são sempre registros importantes, tanto para a história da fotografia quanto para a história da literatura. Conhecemos um pouco mais de Baudelaire ou de Balzac graças aos daguerreótipos de Nadar. Com sua galeria de poetas e escritores italianos, Guglielmina Otter contribui para a divulgação de uma literatura de grande riqueza e variedade, que ainda permanece – como a nossa – mal conhecida no resto do mundo.

Brasileiros vistos pelos italianos

Num artigo para a revista de cinema Lumière, o crítico Sergio Micheli, retomando dos críticos e cineastas brasileiros o surrado discurso da colonização americana, criticava a informatização do país e lamentava o fim da Embrafilme, decretado pelo presidente Fernando Collor como uma vingança contra os intelectuais e artistas de esquerda. Micheli responsabilizava o fracasso do filme Capitalismo selvagem pela adoção de uma estética de telenovela, mas também elogiava a obra de cineastas marginais, como Carlos Reichenbach, Ugo Giorgetti, João Silvério Trevisan, José Agrippino de Paula e Ozualdo Candeias, que permaneceram à margem do cinema oficial da Embrafilme.

Como era de se esperar, o crítico italiano grafava muitos nomes de forma incorreta. Candeias transformou-se em “Candejas”; José Carlos Avellar foi chamado de “José Carlos Avellon”. Surgiu um ignoto “Mjrinho Barbosa” e até o famoso poeta alemão Schiller foi citado como “Shiller”. Va bene! O que me chocava na visão do crítico italiano não era sua desatenção aos nomes, mas a preferência que ele dava ao cinema de José Mojica Marins, destacado num artigo à parte. Zé do Caixão ou, em italiano, “José della bara”, era apresentado como um fenômeno de produtividade, com seus 129 filmes de longa-metragem e seus nove curtas-metragens. Essa quantidade de filmes seria um exemplo de “independência e sucesso”.

Micheli citava, entre outros, A meianotte levarei su alma (sic), numa deliciosa mistura de italiano, espanhol e português. Considerava estimulante a idéia de Mojica de que, no futuro, a Terra seria governada pelos marcianos, com alto desenvolvimento tecnológico. O cineasta de capa preta e unhas longas, amante do horrendo e do nojento, foi paradoxalmente apresentado como “um homem que colheu da existência o que de melhor esta poderia oferecer-lhe: para adquirir experiências, para gozar do que o prazer e o belo na natureza podiam dar-lhe. Casou sete vezes e tem 23 filhos”. Minha idéia de prazer é outra!

A Revista dei Libri também apresentou, em junho de 1995, uma entrevista de Marco Lodi Rizzini com outro brasileiro bem-sucedido: Jorge Amado. O escritor é apresentado como um jovial senhor de 83 anos, que há mais de vinte anos recolhe-se no Estoril para escrever, preparando há dez anos o romance Boris, o vermelho. Para ir à Europa, Amado viajou doze dias em navio, por medo de voar. Passou três meses na Europa recolhendo prêmios e honrarias: o Camões, o Brancati, a Láurea Honoris Causa em Pádova, sempre acompanhado por Zélia Gattai, filha de anarquistas italianos (o pai, Ernesto, florentino, foi assassinado pela polícia do Paraná). Amado diz que escreve seus livros no Hotel Atlântico, no Estoril, ou em Paris, na mansarda da Avenue des Célestins. Na Bahia, os amigos roubam-lhe todo o tempo. Só consegue escrever artigos quando está no Brasil. Em 62 anos de atividade literária, teve 32 de seus livros traduzidos em 42 línguas.

Roma é uma orgia cultural perpétua

A Via Marguta é a rua mais cinematográfica de Roma: no número 113-110 moraram Fellini e Giulietta Massina, e hoje uma placa os recorda; na mesma rua, Gregory Peck encontrou Audrey Hapburn em A princesa e o plebeu; e Mario Camerini dedicou a essa rua o filme Via Marguta. Ali, num café, tenho um encontro cinematográfico: um jovem pintor chamado Felice Giordano aproxima-se de mim e declara-me seguir a tradição de Michelangelo, demorando meses, até anos, para finalizar uma pintura. Prometeu-me enviar um quadrinho. Enviou-me, de fato, depois de dois anos, um desenho mal feito, em estilo egípcio. E pediu-me, em troca, revistas sobre alienígenas!

Há maravilhosas exposições em Roma, e me esforço para não perder nenhuma:

Dio nell’uomo: as obras do pintor fascista Mario Sironi.

Riscoprire Pompei: sobre os últimos progressos das eternas escavações de Pompéia

I luoghi del consenso: mármores provenientes dos Foros de Nerva e de Trajano expostos nos ambientes esplêndidos dos Mercados Trajanos.

Ebla: alle origini della civilità urbana: tesouros da cidade-símbolo da antiga Síria, um dos mais sensacionais achados arqueólogos de todos os tempos, feito por estudiosos italianos há 30 anos.

I Fiaminghi a Roma, no Palazzo delle Esposizioni, com 221 obras de artistas flamengos realizadas em Roma entre 1508 e 1608.

Toros y Toreros, na Sala del Bramante, na Piazza del Popolo, com uma seleção de obras de Goya, Picasso e Dalí sobre a taurimaquia.

Lisippo, l’arte e la fortuna: reunindo cerca de 250 obras que se relacionam ao escultor grego Lisippo (esculturas, pinturas, cerâmicas, gemas, moedas, terracotas) de museus italianos e estrangeiros.

Caravaggio e la collezione Mattei: pela primeira vez são expostos os Caravaggio da coleção Mattei, na Galleria Nazionale d’Arte Antica, no Palazzo Barberini, na Via Qattro Fantane; aqui, tudo é  motivo de admiração: não apenas as obras, como a via onde se encontra o palácio e a própria sala do palácio, com seu belo teto afrescado.

Visito ainda o Museu do Campidoglio, onde – lá no fundo – encontra-se o São João Batista de Caravaggio; os Museus e Claustro da Basílica Lateranense; o Museu Keats e Shelley na Praça de Espanha, com os móveis e livros de Keats, que morou ali nos últimos anos de sua vida, e morreu num quarto cuja janela dá para a Praça.

Inúmeros novos livros sobre Fellini têm sido publicados na Itália. A Editora Laterza lançou o belíssimo álbum I disegni di Fellini, de Pier Marco De Santi; a Rizzoli contra-atacou com um álbum ainda mais luxuoso, Federico Fellini, organizado por Lietta Tornabuoni, com ensaios críticos e inéditos do cineasta. E se eu tivesse feito meu doutorado aqui e não na Alemanha? Ah, quantas belas amizades eu não teria hoje? Fui infeliz na Alemanha. É na Itália que estão minhas raízes.

Retorno à Piazza Navonna. Observo agora como a cultura de massa dominante está estragando essa que é a praça mais bela de Roma, e talvez a mais bela do mundo. Garotos musculosos e tatuados tiram suas camisetas para atrair garotas abobadas, que deixam que eles façam trancinhas em seus cabelos. Um idiota com revólver de plástico espirra água na cara delas…

Visito a impressionante tumba de Santo Ignacio, toda de mármore, uma das grandes obras do barroco, desenhada pelo artista jesuíta Andrés del Pozzo. Foi talhada entre 1695 e 1700, na Chiesa del Gesú, com estátua em gesso recoberto de prata e cravejado de pedras preciosas. Seu corpo repousa embaixo, na tumba. Colunas e nicho em lápis-lazúli, alabastro e mármore, ônix, ametista, cristal de rocha e bronze dourado.

Vou a Tivoli, à Villa d’Este, à Villa Gregoriana, à Vila Adriana, a Ostia Antica. Visito a Igreja San Paolo. Os gatos estão em toda parte, e não parecem abandonados: essa população felina deve ser alimentada pelos romanos diariamente, pois parecem em casa entre as ruínas, ornando cada monumento, à vontade em qualquer cantinho de Roma.

Festa da Música. Projeção de St. Louis Blues (1927), com Bessie Smith, ao ar livre, na Praça do Campidoglio. Mas o melhor ocorreria mais tarde, precisamente à meia-noite: um deslumbrante concerto de Fuochi Barocchi (“Fogos Barrocos”) na Praça Cervantes, no Valle Giulia. Que genial espetáculo criado por Oreste Albarano! Nunca vi nada igual. Trata-se de um folguedo barroco, de uma distração aristocrática. Os fogos de artifício são preparados para explodir segundo o ritmo de um concerto barroco. Quando a música começa, as farândolas começam a girar, e outros fogos se sucedem num crescendo, em todas as cores e formas delicadas, até a apoteose final. O esplendor desses Fuochi Barocchi só encontra paralelo nos filmes de animação de Norman McLaren.

Experimento fazer a excursão “Castelos Romanos”, cujo roteiro inclui a Via Appia Antiqua, a Capela Domine Quo Vadis, Castelgandolfo, Rocca di Papa, Grottaferrata e Frascati. Os turistas não têm tempo de apreciar nada. As excursões de um dia, na Itália, são uma perda de tempo. Decido visitar por minha conta a Catacumba de São Sebastião: tomo na Stazione Termini o ônibus 714 até San Giovanni in Laterano. Depois, o nº 218 até a Via Appia. Sigo ainda um trecho a pé, na estreita e perigosa estradinha dominada pelos veículos. Mas vale o esforço. É um labirinto escuro e misterioso, uma magnífica catacumba com túmulos bem conservados.

Antes de voltar ao Brasil, telefono a Dacia Maraini para me despedir e registro nossa pequena entrevista:

Nos últimos anos você se tornou um dos autores mais importantes da Itália. Seus livros alcançaram uma audiência mundial, traduzidos para os principais idiomas. Qual o seu segredo?

Dacia Maraini: Trabalho muito. Agora mesmo comecei um novo romance. Fiquei muito contente com o resultado de Voci. O livro encontrou boa acolhida do público e recebeu uma espécie de prêmio da crítica na Itália, uma menção importante para a carreira do livro. Escrevi também uma peça chamada Camille, baseada na personagem do filme Camille Claudel. E você, que tem feito? Como faz para viajar tanto?

Bolsas de estudo, economias que dilapido, um pouco de sorte… Agora, por exemplo, estou hospedado no apartamento do amigo da irmã de uma amiga…

Dacia Maraini: E que tem escrito?

Escrevi uma longa tese sobre o cinema nazista e aguardo uma vaga na Universidade. Escrevo muito. Mas os livros que escrevo não são publicados.

Dacia Maraini: Que pena! Aqui também é difícil pertencer aos quadros universitários, deve-se esperar muito tempo até que se abra uma vaga… Mas o tema de sua tese é tão interessante! Você deve conhecer o livro Come si diventa nazista.

Não. De que trata?

Dacia Maraini: É um estudo extraordinário. O autor mostra como o cotidiano de uma pequena cidade da Alemanha se transforma pouco a pouco e como seus habitantes viram nazistas. É perturbador.

Vou procurá-lo. A propósito, como vê o neofascismo ressurgindo na Itália? Encontrei suásticas estampadas nos muros, em diversas cidades.

Dacia Maraini: Sim, é um momento difícil para nós assistir ao crescimento de todas essas forças de direita. Agora mesmo os Juízes de Mãos Limpas estão sendo perseguidos por terem comprometido os poderosos.

Mas o próprio movimento Mãos Limpas parece-me tão carregado de moralismo fascista!

Dacia Maraini: Bem… O moralismo é sempre inquietante, mas no caso de Mãos Limpas, se existe esse perigo, era também necessário combater uma situação insustentável. Não creio que seja um movimento de direita. Foi um movimento justo, importante e corajoso. Quanto ao neonazismo, é algo que deve ser levado a sério, porque embora os membros desse movimento constituam uma minoria, trata-se de uma minoria ameaçadora e violenta.

A estrela de 'Le baruffe chiozzotte' e Dacia Maraini no camarim do Teatro Argentina.

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LO SGUARDO DI MICHELANGELO

Durante algumas semanas de 2004, a Basílica de São Pedro só abriu de manhã para visitação. As tardes foram reservadas para o nonagenário cineasta Michelangelo Antonioni rodar um documentário sobre o Moisés de Michelangelo. O filme Lo sguardo di Michelangelo (“O olhar de Michelangelo”, 2004) retrata o velho cineasta, três anos antes de morrer,  “devorando” sensualmente, com seus olhos e suas mãos, o grupo de estátuas criado por Michelangelo, não hesitando em acariciar as formas perfeitas esculpidas no mármore pelo artista, como se assim exprimisse seu desejo sexual após o derrame que o deixou sem voz e parcialmente paralisado. Antonioni emerge das sombras e caminha  com passos hesitantes em direção à tumba do Papa Júlio II, fixando seu olhar nos olhos mortos, cerrados, dessa figura triste, que o artista retratou amarfanhado em sua própria tumba; e se impressiona com o olhar vivo de um Moisés pleno de força e beleza: a partir de uma identidade de nomes artísticos e olhares vivos e mortos, Antonioni expõe diante da obra-prima de Michelangelo sua própria fraqueza e senilidade, como a esperar uma última redenção através do Belo:

Lo sguardo di Michelangelo (2004)

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ERRATA A UMA ENTREVISTA SOBRE PASOLINI

O leitor pode confiar no jornalismo cultural dos grandes jornais diários brasileiros? O editor do Caderno 2, de O Estado de S. Paulo, Luiz Zanin Oricchio, obrigou-me a responder negativamente à questão. Nada mais fácil de detectar que um erro alheio colocado em nossa boca pela imprensa; se o editor, que tem o poder e o dever de corrigir o erro não o faz, somos levados a pensar que tudo o que ali se publica está cheio de disparates. Como leitor, perdemos a confiança. Concedi por telefone uma entrevista sobre Pasolini, objeto de meu último livro, Todos os corpos de Pasolini, ao jornalista Ubiratan Brasil, do Caderno 2. As repostas de sempre para as perguntas de sempre. O repórter talvez nem tenha tido tempo de ler todo o livro. É normal.

Mas, a 23 de setembro de 2007, a matéria saiu, para minha surpresa, na capa do Caderno Cultura de domingo (e com chamada na própria capa do jornal), mobilizando não apenas o Ubiratan Brasil, mas ainda dois outros jornalistas: Antonio Gonçalves Filho, o melhor jornalista cultural em atividade, e que escrevera a orelha de meu livro; e o próprio editor do Caderno, Luiz Zanin Oricchio. O artigo de Gonçalves era ótimo e o de Zanin, mais fraco; os dois falavam apenas de Pasolini, sem mencionar o livro. Ilustrando o artigo de capa, uma inteligente caricatura de Pasolini como O pensador, de Rodin, algo frágil, e em vermelho, mas nenhuma imagem da capa do livro que motivara as matérias frias.

Eu deveria exultar por uma tão excelente divulgação. É notório que os cadernos culturais da grande imprensa privilegiam poucas editoras: em São Paulo, notadamente a Cosacnaify e a Companhia das Letras. Raramente são destacadas as publicações de editoras menores, que lutam para sobreviver, como a Perspectiva: as coletâneas O Expressionismo, organizada por J. Guinsburg; e Pós-modernismo, por Guinsburg e Ana Mae Barbosa; O Surrealismo, por Guinsburg e Sheila Lerner; o estudo biográfico Yukio Mishima, de Darci Kusano; a edição crítica de Büchner: Na Pena e na Cena, por Guinsburg e Ingrid Dormien Koudela, por exemplo, são alguns dos livros de referência que a editora publicou e não mereceram qualquer resenha na grande imprensa. Nas Bienais do Livro, somos surpreendidos, regularmente, com centenas de edições da mais alta qualidade, produzidas em todo o Brasil, e de que jamais lemos qualquer menção nas mídias impressas. Mesmo as recentes revistas especializadas em livros só resenham os sucessos editoriais previamente estabelecidos. Temos, assim, sempre mais do mesmo.

Desta vez fui curiosamente privilegiado. E, ao ler a enorme matéria sobre Todos os corpos de Pasolini, fiquei feliz e infeliz, como logo diagnosticou meu editor, já acostumado a tais transtornos. Era uma página visualmente bonita; uma matéria para se recortar e guardar, não fossem as incongruências e bobagens que “eu” dizia. Gravada pelo repórter, a entrevista continha erros de transcrição que acabaram na minha boca. O pior deles: “eu” digo que “Pasolini passou a juventude em Israel”. Na entrevista, eu dissera: “Pasolini passou a juventude sob o fascismo”. A palavra fascismo nem soa parecido com a palavra Israel! De onde tiraram isso?

Havia outros erros: “eu” digo que Pasolini preferia trabalhar com atores profissionais, quando eu dissera o que todos sabiam, que ele trabalhava de preferência com atores não profissionais. Enlouquecido, “eu” ainda afirmo: “Como todo italiano que viveu aquele período (anos 40), Pasolini teve um grande vigor sexual”. Como isso soa absurdo! O que eu disse foi: “Como todo italiano que viveu a juventude naquele período (anos 40) Pasolini teve sob o fascismo seu período de maior vigor sexual”. Assim eu tentara explicar, resumidamente, a nostalgia do cineasta, em Salò, por aquele período, que não era, como alguns críticos insinuaram, nostalgia pelo fascismo e sim nostalgia pelo vigor sexual que ele experimentara sob o fascismo; essa coincidência tornou sua sexualidade mais complexa e explicava sua preferência pelo décor dos anos do fascismo ao realizar naquele filme sua maior crítica ao consumismo contemporâneo.

Enviei uma errata por e-mail ao editor Luiz Zanin Oricchio e a Ubiratan Brasil. A resposta de Ubiratan foi honesta e profissional. Ele considerou justo meu incômodo com a transcrição da nossa conversa. Ele gravara a entrevista e pedira para outra pessoa tirar a fita, por conta de problemas inesperados na redação. Não tendo podido ele mesmo realizar esse trabalho, que sempre fazia, e confiante na fidelidade da transcrição, ele pedira que outra pessoa fechasse a matéria em seu lugar. Infelizmente, reconhecia agora várias incorreções. Lamentava que isso tivesse acontecido e encarregava-se de providenciar uma errata. Tentaria corrigir o máximo possível dos erros. Esperava, desse modo, amenizar as falhas. Pedia que eu aceitasse suas sinceras desculpas. E, como a matéria saíra no caderno Cultura, que circula aos domingos, faria isso na próxima edição do caderno, segundo o regulamento da casa. E se despedia novamente desculpando-se pelos tropeços.

Ao assumir francamente os erros, sem vaidade e de peito aperto, Ubiratan Brasil cresceu aos meus olhos. Também Gonçalves, ao ler a matéria, lamentou os erros na entrevista. Não a lera antes de ser publicada, pois estava fora e não participara da edição do Caderno. Mas tinha certeza de que seria feita a retificação. Atribuía os erros à pressa e ao acúmulo de trabalho que haviam prejudicado a edição de Ubiratan, um profissional sério que, nas últimas semanas, acumulara as funções de editor, substituindo Dib Carneiro, em viagem profissional, e ainda assumira a coluna “Persona”, que estava sem o titular.

Já Zanin reagiu com ironia e sarcasmo, afirmando que o pessoal do Estado produzia um jornalismo cultural do mais alto nível; que achava uma pena que eles não estivessem talvez à altura das minhas expectativas ou da excelência da minha obra; prometia tentar melhorar para ver se conseguia chegar, um dia talvez, ao meu padrão de qualidade. E despedia-se sem mais.

Defendi-me desses dardos envenenados: “Também procuro a sempre difícil excelência no meu ofício, mas raramente a encontro. Quanto às minhas altas expectativas, elas jamais serão alcançadas por qualquer mídia capitalista, por mais que se esforce. E padrão de qualidade eu deixo para a Rede Globo. Já os leitores de qualquer mídia merecem ter acesso a informações corretas. Por isso sempre procuro corrigir os erros, sejam eles publicados no Estado ou num jornal de bairro. Envio-lhe, em anexo, a entrevista com correções para eventual errata.”

Zanin retrucou que expectativas podiam ser atendidas ou não; que as dele envolviam não apenas a excelência do trabalho como a urbanidade no trato; que eu não precisaria agradecer-lhe já que ele tinha prazer em tratar com pessoas educadas e generosas; e que analisaria se minha demanda de correção era de fato procedente. Nesses poucas linhas, ele sugeria que eu era mal educado, errado, grosseiro, enquanto ele, generoso, excelente, polido, considerava, contra todas as evidências, não haver erro algum na transcrição da entrevista, exibindo-me seu ameaçador polegar, que já pendia para baixo.

De fato, a errata não veio. Se o ouvido é falho e as transcrições, além de trabalhosas, traidoras, os jornalistas que insistem em fazer entrevistas por telefone na era do e-mail estão décadas atrasados: acabam colocando erros de suas transcrições na boca dos entrevistados, que nada mais podem fazer depois que esses saem publicados, sobretudo se ainda cometem a imprudência de ferir a vaidade de um editor que se sente acima do direito dos leitores ao acesso a informações corretas. Multiplicados por milhares nas rotativas, os erros são reproduzidos ao infinito pela Internet. Para amenizar o estrago, postamos abaixo a versão correta da entrevista.

PROFECIAS DE PASOLINI

Todos os Corpos de Pasolini, de Luiz Nazario, traz uma análise da extensa obra do cineasta que previu os desastres do mundo contemporâneo

Ubiratan Brasil

Em 2006, mais de 700 intelectuais europeus assinaram abaixo-assinado associando-se ao prefeito de Roma, Walter Veltroni, na reabertura do processo sobre o assassinato não esclarecido do escritor e cineasta Pier Paolo Pasolini, ocorrido em novembro de 1975. Passados 32 anos, o crime acontecido em circunstâncias ainda nebulosas (o até então único suposto assassino, Giuseppe Pelosi, confessou em 2006 que não agira sozinho) movimenta dramaticamente a memória de um dos grandes pensadores do século passado.

“Numa época em que a violência de massa se tornou a realidade cotidiana de todos os países do mundo, com criminalidade e neofascismo galopantes; em que a corrupção do neoliberalismo ficou evidente para qualquer um; e em que o consumismo assumiu, sem disfarces, a destruição dos valores humanos e a dilapidação das reservas naturais do planeta, a obra de Pasolini demonstra sua incandescente atualidade: ainda nos anos de 1970, ele alertou o mundo, ao preço da própria vida, para o inumano que hoje domina toda a economia, toda a política”, escreve o historiador Luiz Nazario, um dos mais profundos conhecedores da obra pasoliniana no Brasil. Ele é autor de Todos os Corpos de Pasolini, lançado agora pela Perspectiva (378 páginas, R$ 68) e que oferece uma esclarecedora análise sobre uma obra de inesgotável valor artístico: mais de 16 mil páginas de poemas, romances, contos, crônicas, ensaios, peças, roteiros e cartas, ao lado de 26 filmes, e traduções, desenhos, pinturas, músicas, entrevistas e performances.

Crítico radical da sociedade de seu tempo, Pasolini (1922-1975) foi um dos primeiros a enxergar a virada irreversível do mundo. Nazario observa que o cineasta, autor de filmes seminais como Teorema, O Evangelho Segundo Mateus e Gaviões e Passarinhos, experimentou em seu corpo a mutação antropológica da humanidade pela homologação cultural. De fato, entre suas várias facetas, a do diagnosticador dos tempos que viriam é a mais conhecida.

Ciente de que o mundo é movido por forças contrastantes, Pasolini pregava contra o conformismo estéril. Ele acreditava também que a arte exige conhecimento prévio e técnico, não sendo ato de pura vontade nem dom natural. Diante de um material tão rico, Nazario, autor da primeira biografia do cineasta no Brasil (Orfeu na Sociedade Industrial, publicado em 1982 pela Brasiliense), preferiu dividir seu livro em temas, a fim de dissecar todos os aspectos da obra pasoliniana. Há até um capítulo especialmente sobre a recepção que os filmes de Pasolini tiveram no Brasil e outro com uma entrevista inédita em livro com Gianni Scalia, crítico literário que foi grande amigo de Pasolini. Sobre o trabalho, Nazario conversou, por telefone, com o Estado.

Já é possível avaliar o legado da obra de Pasolini?

Acho que ainda é difícil, porque as obras completas foram publicadas há muito pouco tempo. Assim, temos aspectos específicos sobre a poesia, cinema e literatura, mas um livro que englobe realmente tudo ainda não existe.

O que você diria sobre o cinema?

A obra cinematográfica é marcante e isso partindo de uma pessoa que não tinha formação de cinema – ele era escritor que decidiu fazer cinema por volta dos 40 anos, reinventando o cinema pela linguagem que ele próprio ia criando. Isso também teve um impacto muito grande na teoria que desenvolveu sobre o cinema, que é muito complexa.

Até que ponto o neo-realismo influenciou a obra de Pasolini?

No início, a influência era grande, especialmente nos primeiros dois filmes, Desajuste Social e Mamma Roma. Ali, a influência está na escolha dos atores amadores, uma característica do neo-realismo, além da composição dos cenários reais, marcados pela pobreza.

Ele falava que fazia cinema para uma elite, desconsiderando o sentido tradicional da palavra.

Sim, uma elite intelectual, ou seja, pessoas que ele considerava ainda não terem sido contaminadas pelo consumismo, que pensavam por si próprias, sem serem teleguiadas pelas mídias, pela televisão.

E essa elite compreendia seu cinema?

É difícil responder. Acho que não. Alguns poucos entenderam pelo fato de ele ser muito criticado pelos intelectuais – Pasolini era literalmente bombardeado por nomes como Umberto Eco. Havia, pois, uma mínima compreensão do que ele pretendia dizer.

Isso comprova que Pasolini estava à frente do seu tempo?

Exatamente, ele só foi reconhecido realmente muito tempo depois de sua morte. Para se ter uma idéia: só colocaram uma placa identificando a casa onde ele nasceu, em Bolonha, há uns cinco anos. Pasolini já era reconhecido mundialmente, mas na cidade onde ele nasceu havia ainda essa rejeição.

É possível afirmar que especialmente nos últimos anos de sua cinematografia, Pasolini foi um exemplo de cineasta político?

Se você se refere a Salò, acredito que sim. Trata-se de um filme muito complexo para se analisar. Existe ali um aspecto interessante sobre a época retratada no filme, porque ele passou a juventude sob o fascismo e tem alguns aspectos que abordo no livro sobre a descoberta da sexualidade. Como todo italiano que viveu aquele período (anos 1940), foi durante o fascismo que Pasolini viveu seus anos de maior vigor sexual. Mas, ao mesmo tempo, era a época opressora do fascismo, então as duas coisas estão muito misturadas no filme. Embora fosse de esquerda, no filme Pasolini demonstra certa nostalgia, não do fascismo, pois era um antifascista, mas daquele período em que viveu sua “melhor juventude”.

É possível identificar uma clara divisão em sua obra cinematográfica, com uma primeira fase marcada por Accatone, Mamma Roma e depois outra, mais pessoal, com Teorema e Pocilga?

Acredito que toda obra dele é muito pessoal – só o fato de ele colocar a própria mãe como a mãe de Cristo e amigos como apóstolos, intelectuais trabalhando como figurantes em O Evangelho Segundo Mateus, já indica que é um filme muito pessoal. Ali, Pasolini se posicionou como um Cristo da sociedade contemporânea, ou seja, destinado a ser linchado.

Ao seguir por caminhos novos, Pasolini procurava negar o que já tinha feito anteriormente?

Cada fase da sua obra corresponde a uma mutação antropológica; ele assume posições cada vez mais radicais diante das transformações da sociedade italiana. Pasolini era extremamente perceptível às mudanças sociais e sua obra reflete isso. É, por exemplo, o que acontece no início dos anos 1970, quando roda a Trilogia da Vida, em que mostra os primeiros nus frontais masculinos do cinema comercial: logo depois ele reage à explosão da pornografia a partir de filmes como Garganta Profunda, que arrecadou milhões, fazendo com que esse erotismo pornográfico passasse a dominar as telas do mundo. Temendo ser confundido com essa onda, Pasolini abjura a Trilogia da vida e anuncia que vai fazer um filme anti-sexo, que é o Salò. O que não considero certo é o pensamento de que esse filme é seu testamento, o que não é verdade.

Seguindo essa linha de raciocínio, como você classificaria Édipo Rei e Medéia em sua obra?

Esses pertencem à chamada fase mítica, que começa com o Cristo do Evangelho e da qual fazem parte Medéia e Édipo Rei, embora o Cristo esteja ligado à mitologia cristã. Quando teve uma grave crise de úlcera, durante o restabelecimento Pasolini começou a ler Platão e ficou entusiasmado a ponto de ler muitos livros sobre mitologia. Com isso, teve a idéia de adaptar os textos gregos, mas sempre com referências contemporâneas – Medéia, por exemplo, trata da questão do Terceiro Mundo, muito em voga na época.

A falta de experiência no cinema sempre foi compensada por uma sólida cultura adquirida?

Exatamente. E também pelo relacionamento que mantinha com artistas consagrados – em Medéia, por exemplo, ele escalou Maria Callas, que nunca havia feito cinema e nunca mais faria depois. Na verdade, ela não foi uma escolha pessoal; um produtor sugeriu, e ele inicialmente até rejeitou, pois preferia atores não-profissionais. Mas quando se conheceram em Paris, Pasolini apaixonou-se por Callas, e a convenceu a aceitar o papel.

Como explicar seu cinema tão intelectualizado?

Na verdade, ele vivia uma vida dupla: de dia, com os maiores intelectuais e, à noite, com os marginais. O genial é que Pasolini conseguia unir esses dois mundos que jamais se uniriam. Fazer, por exemplo, Totò, que era um ator aristocrático, contracenar com Ninetto Davoli, que era uma espécie de marginal. Aliás, a primeira vez em que Totò recebeu Davoli em sua casa, mandou desinfetar o sofá. Parece que só Pasolini conseguia unir Orson Welles com prostitutos que trabalhavam como figurantes em A ricota. Enfim, ele conseguia que monstros sagrados do cinema e marginais convivessem no mesmo universo.

Como era, aliás, essa relação com os atores?

A maioria guardou experiências positivas com Pasolini, que ele era muito dedicado, principalmente com os marginais, os pobres, aqueles que nunca tinham feito cinema. Pasolini era paciente, explicava como funcionava o cinema, o que tinham de fazer. Já com os profissionais, não tinha uma relação muito boa, ele sempre falava mal da interpretação de Anna Magnani em Mamma Roma, e parece que os dois brigaram muito no set.

Já a sua relação com a televisão foi tímida.

Sim, ele sempre detestou a televisão, embora tivesse realizado documentários que passaram na telinha. Não acredito que tenha planejado fazer filmes especialmente para a televisão.

O que você diria sobre a fase corsária de Pasolini, já nos anos 1970?

A partir de Teorema, que é o grande filme do Pasolini, pois capta o espírito do tempo, vem seu período mais efervescente – para mim, um dos melhores períodos também da crítica de Pasolini, de polêmica em jornais sobre a atualidade italiana, contra o consumismo.

Sobre as discussões a respeito do assassinato, você acredita que se chegará a um veredicto definitivo?

Depois de tanto tempo, será impossível encontrar traços ou provas concretas. Tudo foi apagado. Ficará sempre o mistério, embora agora pareça mais claro que Pelosi não tenha matado Pasolini sozinho. Como ele é muito louco, problemático, também não se pode confiar no que fala.

Pasolini ficou como um crítico radical da sociedade?

Sim, eu o colocaria ao nível de um Sartre, um Marcuse, uma Sontag, entre os grandes pensadores contemporâneos.

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DIOGO MAINARDI SOBRE PASOLINI

Diogo Mainardi: Cinema Novo x Pier Paolo Pasolini

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PASOLINI E A MÚSICA

Sem formação musical, Pasolini manteve com a música uma relação poética, livre, mas intensa. Segundo Laura Betti, Pasolini “tinha temor à música, porque ela o possuía completamente. Ele a chamava freqüentemente de Sua Majestade”. O gosto musical de Pasolini era bastante eclético: de Rita Hayworth, homenageada em sua novela Amado mio, à música clássica, que sacraliza o subproletariado em Accattone, Mamma Roma e La ricotta; de Domenico Modugno, que canta os créditos iniciais de Uccellacci e uccellini, à música folclórica internacional, que irrompe em Il Vangelo secondo Matteo, Edipo re e Medea… Neste último filme, é genial o uso que Pasolini faz de um canto tradicional do Japão na cena em que os argonautas entoam a canção que Orfeu tira de sua lira: num paralelismo musical, ele remete os gregos que cantam ali em japonês a uma cena de seus filmes prediletos, Biruma no tategoto (A harpa da Birmânia, 1956), de Kon Ichikawa, onde os japoneses fazem uma pausa na batalha para cantar, enquanto o soldado-músico dedilha seu instrumento em plena selva, como Orfeu…

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PASOLINIANA AUDIOVISUAL

  1. A futura memoria: Pier Paolo Pasolini (Itália, 1986, 115’, cor, doc). Direção: Ivo Barnabò Micheli. Documentário sobre a vida e a morte de Pier Paolo Pasolini.
  2. Bernardo Bertolucci: A cosa serve il cinema? (Itália, 2002, TV, 57’, cor e p&b, doc). Direção: Sandro Lai. Fotografia: Daniele Piccioni. Edição: Giuseppe Baldieri. Documentário sobre o cineasta Bernardo Bertolucci, com cenas de arquivo de Pier Paolo Pasolini.
  3. Callas assoluta (2007, cor, doc). Direção: Philippe Kohly. Documentário comemorativo dos 30 anos da morte de Maria Callas, com cenas de arquivo com Pier Paolo Pasolini.
  4. Erika Rabau: Puck of Berlin (Alemanha, 2008, 87’, cor e p&b, doc). Direção: Samson Vicent. Documentário com cenas de arquivo com Pier Paolo Pasolini.
  5. Io sono Anna Magnani (Itália, 1979, 105’, cor e p&b). Direção: Chris Vermorcken. Documentário sobre a atriz Anna Magnani, com cenas de arquivo de Pier Paolo Pasolini.
  6. Pasolini prossimo nostro (Itália, 2006, 58’, cor e p&b, doc). Direção: Giuseppe Bertolucci. Com Franco Merli, Pier Paolo Pasolini, equipe e elenco de Salò. No set de filmagem de Salò, Pasolini é seguido por um pequena equipe cinematográfica dirigida pelo jornalista Gideon Bachmann e concede uma longa entrevista, em que profere contundentes ataques à sociedade. O filme combina essas imagens em preto e branco com cenas coloridas das filmagens.
  7. Pier Paolo Pasolini e la ragione di un sogno (Itália, 2001, cor e p&b, doc). Direção: Laura Betti e Paolo Costella. Roteiro: Laura Betti e Pasquale Plastino. Produção: Jean-Pierre Bailly, Roberto Cicutto, Carlo Degli Esposti. Trilha original: Bruno Moretti. Fotografia: Fabio Cianchetti. Edição: Roberto Missiroli. Assistente de Direção: Antonio Cecchi. Som: Fabio Cerretti. Edição adicional: Paolo Petrucci. Documentário sobre Pier Paolo Pasolini com cenas de arquivo e entrevistas com Pasolini e com Francesca Archibugi, Bernardo Bertolucci, Mimmo Calopresti, Mario Cipriani, Franco Citti, Sergio Citti, Pappi Corsicato, Ninetto Davoli, Andrea De Sica, Virgilio Fantuzzi, Giacomo Marramao, Mario Martone, Soo Min Choul, Michela Noonan, Tullia Perotti, Enzo Siciliano, Paolo Volponi.
  8. Salò Documentary (Inglaterra / Itália / Canadá, 2001, cor, doc). Direção, Roteiro: Mark Kermode. Documentário sobre a realização de Salò, que lança luzes sobre os problemas enfrentados pelo cineasta durante a realização de seu último filme, que muitos consideravam o mais insuportavel da história do cinema. Embora não fosse ilegal, causava grande escândalo na época que os jovens que filmavam nus tivessem em torno de 16 anos.
  9. Wie de Waarheid Zegt Moet Dood / Whoever Says the Truth Shall Die (Holanda, 1981, , 60’, cor & p&b, doc, TV). Direção: Philo Bregstein. Produção: Verenigde Arbeiders Radio Amateurs Television (VARA). Documentário sobre a vida e a morte de Pier Paolo Pasolini, com depoimentos de Bernardo Bertolucci, Laura Betti, Maria Antonietta Macciocchi, Nino Marazzita, Alberto Moravia, e cenas de arquivo de Pier Paolo Pasolini. O filme traz algumas imagens chocantes do cadáver de Pasolini.

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PASOLINIANA LITERÁRIA

  1. AA.VV. Pier Paolo Pasolini. Lignes, n◦18, Paris, out. 2005, Editor Léo Scheer.
  2. BIANCOFIORE, Angela (org.). Pier Paolo Pasolini: Pour une anthropologie poétique. Colloque international, Université Paul Valéry – Montpellier III, 8-9 mars 2002. Volume collectif, 167 p. ISBN: 978-2-84269-792-1. O volume retoma parte das comunicações apresentadas por ocasião do Colóquio Pasolini: pour une anthropologie poétique (Université de Montpellier III, mars 2002). Pasolini é estudado enquanto um “poeta antropólogo” que se revela cada vez mais atual num mundo em que as culturas, as línguas, os mundos desaparecem rapidamente, através dos fenômenos das migrações e da globalização. Ler Pasolini nessa perspectiva significa retornar ao seu engajamento sem esperança, ao seu niilismo ativo dos últimos anos.
  3. BIANCOFIORE, Angela. ‘Médée’ de Pier Paolo Pasolini: la vengeance du sacré. Este texto me foi enviado diretamente pela autora, sem outras referências.
  4. BIANCOFIORE, Angela. La naissance d’Athéna: mythe et histoire dans Pylade de Pasolini. Cahiers de l’IREC, 1/2006, Université Paul Valéry, Montpellier.
  5. BIANCOFIORE, Angela. Pasolini. Palermo: Edizioni Palumbo, 2003, 344p. A última parte do ensaio contém uma história da recepção da obra de Pasolini de 1943 a 2003 e apresenta uma antologia dos textos críticos mais significativos. ISBN: 88-8020-523-4.
  6. CALABRESE, Giuseppe Conti. La mania della verità. Dialogo con Pasolini. Bologna: Cappelli, 1978.
  7. CALABRETTO, Roberto Pasolini e la musica. Edizioni Cinemazero, 1999, 560p.
  8. DE GIUSTI, Luciano (org.). Il cinema in forma di poesia. Edizioni Cinemazero, 1979, 188p.
  9. DUFAUX, Jean; ROTUNDO, Massimo. Pasolini. Pig! Pig! Pig!. Paris: Glénat, 1993, 58p. Revista em quadrinhos em que Jean Dufaux e o desenhista romano Massimo Rotundo exploram momentos pouco conhecidos da vida de Pasolini e os laços  invisíveis que unem a ficção à realidade. Vinte anos depois do assassinato de Pasolini, o policial decadente Antonio Scerba investiga os últimos dias do cineasta. Através das lembranças de protagonistas e testemunhas, os últimos encontros de Pasolini são revividos, até a descoberta de seu corpo na praia de Ostia. Uma espantosa galeria de personagens desfila neste mistério criminal até hoje não elucidado.
  10. FUSILLO, Massimo. La Grecia secondo Pasolini. Mito e cinema. Firenze: La Nuova Italia, 1996.
  11. JÚNIOR, Erly Vieira. Recortes e rasuras no corpo: sagrado e erotismo no ‘Teorema’ de Pier Paolo Pasolini. INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – BH/MG – 2 a 6 set 2003, 15p
  12. MEACCI, Giordano. Improvviso in Novecento: Pasolini professore. Apêndices de Massimiliano Malavasi e Francesca Serafini. Roma: Edizioni minimum fax, 1999, 408 p.
  13. MOREAU, Alain. Le mythe de Jason et Médée. Le va-nu-pied et la sorcière. Paris: Les belles lettres, 1994.
  14. PASOLINI, Pier Paolo. “La Guinea”. in: BARDOTTI, S.; BERNOBINI, P. La loro voce la loro opera. Roma: Edizioni Letterarie, maio 1962.
  15. PASOLINI, Pier Paolo. Bestemmia, tutte le poesie. Torino: Ed.Garzanti, 1993.
  16. PASOLINI, Pier Paolo. Entretiens avec Jean Duflot. Paris: Gutemberg, 2007.
  17. PASOLINI, Pier Paolo. Manifesto per un nuovo teatro [1968]. Teatro: Calderon, Affabulazione, Pilade, Orgia, Bestia da stile. Prefácio de G. Davico Bonino. Garzanti: Milano, 1988.
  18. PASOLINI, Pier Paolo. Médée. Tradução e apresentação de Christophe Mileschi. Paris: Arléa, 2002.
  19. PASOLINI, Pier Paolo. Poesia in forma di rosa. Milano: Garzanti, 1964
  20. SARAIVA, Arnado (org.). Páginas de estética contemporânea. Seleção, tradução, prefácio e notas de Arnaldo Saraiva. Lisboa: Editorial Presença, 1966, 236p.
  21. VITELLI, Armando; ARBASINO, Alberto; LEONETTI, Francesco; SANGUINETI, Edoardo; MORAVIA, Alberto; PASOLINI, Pier Paolo. Requiem pelo romance. Debate organizado pelo jornal italiano Paese Sera, 26 mar. 1965. In: SARAIVA, Arnado (org.). Páginas de estética contemporânea. Seleção, tradução, prefácio e notas de Arnaldo Saraiva. Lisboa: Editorial Presença, 1966. 236p.
  22. VINH, Graziella. La Grèce de Pasolini. Acta Fabula, v. 9, n. 1, 18 jan. 2008. URL: http://www.fabula.org/revue/document3796.php.
  23. ZIGAINA, Giuseppe. Pier Paolo Pasolini et la sacralité de la technique, Editions Kara, 1986, 258p.

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FANTASIAS DE PASOLINI

DVD FANTASIAS DE PASOLINI

Coordenação: Luiz Nazario

Arte final e autoração: Marcelo La CarrettaConteúdo

Nota de produção

O DVD Fantasias de Pasolini, produzido durante a escritura do livro Todos os corpos de Pasolini, de Luiz Nazario, da Editora Perspectiva, reúne todos os clipes sobre Pasolini realizados entre 2005 e 2007 por bolsistas e pesquisadores do Departamento de Fotografia, Teatro e Cinema da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais dentro do Projeto de Pesquisa Pier Paolo Pasolini: Vida e Obra, em convênio com a Università degli Studi di Bologna, através do Istituto Gramsci Emilia-Romagna e do Dipartimento di Italianistica. São quinze animações, colagens e montagens sobre poemas do escritor e cineasta italiano com fundos de fotografias dos lugares que ele freqüentava na sua Bolonha natal e de trechos de filmes de outros cineastas alusivos à sua vida e obra. Produzidas aos 30 anos da morte do poeta, com uma finalidade simultaneamente didática e artística, essas fantasias (numa referência à clássica animação de Walt Disney) constituíram a homenagem de uma escola brasileira de animação ao poeta assassinado em 1975, em circunstâncias até hoje não completamente esclarecidas.

1. PIER PAOLO PASOLINI POR PIER PAOLO PASOLINI (Brasil, 2005, DV, cor, 1’47’’). Gênero/Técnica: Animação. Criação: Alex Queiroz. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Apoio: CNPq. Sinopse: Fantasia audiovisual sobre imagens dos principais filmes de Pier Paolo Pasolini.

2. O PÓRTICO DA MORTE (Brasil, 2005, DV, p&b, 30’’). Gênero/Técnica: Live action com animação. Direção, Roteiro, Edição, Animação: Alex Queiroz de Souza. Câmara, Luz, Som: Luiz Carlos Carneiro. Poema: “O pórtico da morte”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Luiz Nazario. Elenco: Mariana Blanco. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Apoio: CNPq. Sinopse: Recitação de um poema de Pier Paolo Pasolini em clima de filme noir.

3. UMA SOLITÁRIA VOZ (Brasil, 2005, DV, cor, 2’20’’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui e animação computadorizada. Direção: Eduardo Ferreira dos Santos. Orientação técnica: Marcelo La Carretta. Direção de Ator: Luiz Nazario. Assistente de Produção: Hudson Carvalho. Assistente de Direção: Leonardo Faria. Câmara, Luz, Som: Luiz Carlos Carneiro. Voz Off: Pier Paolo Pasolini / La mia sola puerile voce / CD Ennio Morricone – Pasolini, um delitto italiano / Concessão: BMG ARIOLA S.P.A. Imagens: Mamma Roma (Mamma Roma, 1962); Edipo Re (Édipo Rei, 1967), de Pier Paolo Pasolini. Poema: Versos de “La Guinea”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Marília Sette Câmara. Elenco: Carlo Varotti. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Apoio: CNPq. Sinopse: Vinheta animada transpondo uma visão do ‘Terceiro Mundo’ a partir de versos do poema “La Guinea”, de Pier Paolo Pasolini.

4. SUPPLICA A MIA MADRE (Brasil, 2005, DV, p&b, 2’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Criação: Alex Queiroz. Direção de Ator: Luiz Nazario. Assistente de Produção: Hudson Carvalho. Assistente de Direção: Leonardo Faria. Câmara, Luz, Som: Luiz Carlos Carneiro. Poema: “Supplica a mia madre”, de Pier Paolo Pasolini. Elenco: Veronica Bridi. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Leitura do poema “Supplica a mia madre”, de Pier Paolo Pasolini, com técnica mista de live action e cromaqui de imagens de manuscritos do poeta.

5. SÚPLICA À MINHA MÃE (Brasil, 2005-2007, Betacam, cor, 2’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Direção: Luiz Nazario. Assistente de Produção: Hudson Carvalho. Assistente de Direção: Leonardo Faria. Câmara, Luz, Som: Luiz Carlos Carneiro. Edição: Nelson Barraza. Poema: “Supplica a mia madre”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Luiz Nazario. Imagens: Biruma no tategoto (A harpa da Birmânia,  1956), de Kon Ichikawa; Medea (Medéia, 1969), de Pier Paolo Pasolini; fotos de Pasolini com a mãe, Susanna; pinturas de Pasolini. Tratamento de Imagem: Marco Anacleto. Elenco: Eleonora Mendes. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Recitação integral do poema “Súplica à minha mãe”, de Pier Paolo Pasolini, sobre imagens de Kon Ichikawa e Pier Paolo Pasolini.

6. AMOR DE MÃE (Brasil, 2006, DV, cor, 1’33’’). Gênero/Técnica: Animação por rotoscopia. Direção, Roteiro, Animação: Isabelle Maluf. Voz: Eleonora Mendes. Poema: “Súplica à minha mãe”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Luiz Nazario. Imagens: Mamma Roma (idem, 1962), de Pier Paolo Pasolini. Professores Orientadores: Antônio Fialho, Chico Marinho, Maurício Gino. Disciplinas: Animação A e B. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Recitação de versos do poema “Súplica à minha mãe”, de Pier Paolo Pasolini, com animação por rotoscopia.

7. PRECE DE ENCOMENDA (Brasil, 2005, DV, cor, 3’22’’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Criação: Eduardo Ferreira. Orientação técnica: Marcelo La Carretta. Direção de Ator: Luiz Nazario. Assistente de Direção: Leonardo Faria. Assistente de Produção: Hudson Carvalho. Poema: “Prece de encomenda”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Luiz Nazario. Câmara, Luz, Som: Luiz Carlos Carneiro. Elenco: Gustavo Schetini. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Apoio: CNPQ. Sinopse: Leitura do poema “Prece de encomenda”, de Pier Paolo Pasolini, com técnica mista de live action e cromaqui de imagens em live action.

8. LO SCANDALO DEL CONTRADDIRMI: LE CENERI DI GRAMSCI (Brasil, 2005, DV, cor, 1’35’’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Criação: Alex Queiroz. Direção de ator: Luiz Nazario. Edição: Nelson Barraza. Elenco: Carlo Varotti. Poemas: “A G. L. Rondi”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Luiz Nazario, Marília Sette Câmara. Imagens: Zemlya (Terra, 1930), de Aleksandr Dovzhenko. Elenco: Carlo Varotti. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Recitação de versos do poema “Le Ceneri di Gramsci”, de Pier Paolo Pasolini, sobre imagens de Aleksandr Dovzhenko.

9. A G. L. RONDI (Brasil, 2005-2007, Betacam, cor, 1’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Criação: Alex Queiroz. Direção de ator: Luiz Nazario. Edição: Nelson Barraza. Elenco: Carlo Varotti. Poemas: “A G. L. Rondi”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Luiz Nazario, Marília Sette Câmara. Imagens: Desenhos de Eduardo Felix; cena trucada de A paixão de Joana D’Arc, de Carl Dreyer. Elenco: Carlo Varotti. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Recitação de um epigrama de Pier Paolo Pasolini sobre imagens de desenhos de Eduardo Félix.

10. AL PRINCIPE BARBERINI (Brasil, 2005-2007, Betacam, cor, 1’5’’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Criação: Alex Queiroz. Direção de ator: Luiz Nazario. Edição: Nelson Barraza. Elenco: Carlo Varotti. Poema: “Al principe Barberini”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Luiz Nazario, Marília Sette Câmara. Imagens: Desenhos de Eduardo Felix. Elenco: Carlo Varotti. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Recitação de um epigrama de Pier Paolo Pasolini sobre desenhos de Eduardo Félix.

11. AI NOBILI DEL CIRCOLO DELLA CACCIA (Brasil, 2005-2007, Betacam, cor, 40’’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Criação: Alex Queiroz. Direção de ator: Luiz Nazario. Edição: Nelson Barraza. Elenco: Carlo Varotti. Poema: “Ai nobili del circolo della caccia”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Luiz Nazario, Marília Sette Câmara. Imagens: Desenhos de Eduardo Felix; Il Pollo ruspante (O frango caseiro), de Ugo Gregoretti, do filme coletivo Ro.Go.Pa.G. (idem, 1963). Elenco: Carlo Varotti. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Recitação de um epigrama de Pier Paolo Pasolini sobre desenhos de Eduardo Félix e imagens de Ugo Gregoretti.

12. LA GUINEA (Brasil, 2005-2007, DV, cor, 14’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Direção: Luiz Nazario. Assistente de Produção: Hudson Carvalho. Assistente de Direção: Leonardo Faria. Câmara, Luz, Som: Luiz Carlos Carneiro. Poema: “La Guinea”, de Pier Paolo Pasolini. Imagens: Powaqqatsi (Powaqqatsi, 1988), de Godfrey Reggio; Baraka (Baraka, 1992), de Ron Frick. Tradução: Marília Sette Câmara. Elenco: Carlo Varotti. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Apoio: CNPq. Sinopse: Recitação integral do poema “La Guinea”, de Pier Paolo Pasolini sobre imagens de Godfrey Reggio e Ron Frick.

13. IO SONO UMA FORZA DEL PASSATO (Brasil, 2005-2007, Betacam, cor, 1’10’’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Criação: Alex Queiroz, Luiz Nazario. Edição: Nelson Barraza. Elenco: Carlo Varotti. Poema: “Io sono una forza del passato”, de Pier Paolo Pasolini. Imagens: Desenhos de Eduardo Felix; La Ricotta (A ricota), de Pier Paolo Pasolini, do filme coletivo Ro.Go.Pa.G. (Ro.Go.Pa.G., 1963). Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Carlo Varotti recita o poema “Io sono una forza del passato”, de Pier Paolo Pasolini, sobre desenhos de Eduardo Felix e imagens de Pier Paolo Pasolini.

14. EU SOU UMA FORÇA DO PASSADO (Brasil, 2005-2007, Betacam, cor, 1’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Direção, roteiro: Luiz Nazario. Assistente de Produção: Hudson Carvalho. Assistente de Direção: Leonardo Faria. Câmara, Luz, Som: Luiz Carlos Carneiro. Edição: Nelson Barraza. Imagens: Cenas do episódio La Ricotta (A ricota), de Pier Paolo Pasolini, do filme coletivo Ro.Go.Pa.G. (Ro.Go.Pa.G., 1963). Tratamento de imagens: Marco Anacleto. Elenco: Guará Rodrigues, Eleonora Mendes. Poema: “Eu sou uma força do passado”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Luiz Nazario, Marília Sette Câmara. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Apoio: CNPq. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Guará revive Orson Welles recitando o poema “Eu sou uma força do passado” sobre imagens de Pier Paolo Pasolini.

15. AZZURRO (Brasil, 2005-2007, Betacam, cor, 4’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Direção, roteiro: Luiz Nazario. Assistente de Produção: Hudson Carvalho. Assistente de Direção: Leonardo Faria. Câmara, Luz, Som: Luiz Carlos Carneiro. Edição: Juan Celín, Nelson Barraza. Música: “Azzurro” (1960), de Adriano Celentano. Imagens: La Ricotta (A ricota), de Pier Paolo Pasolini, do filme coletivo Ro.Go.Pa.G. (Ro.Go.Pa.G., 1963); fotos dos “lugares de Pasolini” em Bolonha e de Gianni Scalia, por Luiz Nazario. Tratamento de imagens: Marco Anacleto. Elenco: Guará Rodrigues, Eleonora Mendes. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Apoio: CNPq. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Um casal de turistas passeia sobre imagens de Pier Paolo Pasolini; pelos lugares que ele freqüentava em Bolonha; e pela biblioteca do amigo Gianni Scalia.

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O LEGADO DE PASOLINI

LUIZ NAZARIO responde ao jornalista João Barile, do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, em 2007

Em entrevista recente, você assinalou a importância do Cine Bijou na sua formação. E afirmou: “O cinema dos anos de 1960-1970 tinha uma qualidade humana, política e perversa que nos fazia respirar mesmo sob a ditadura e que desapareceu com a cada vez mais dominante cultura de massas produzida sob o terror da AIDS. Ver todos esses filmes maravilhosos na adolescência fez de mim um apaixonado pelo cinema complexo, elitista e libertário, de que Pasolini era um dos principais representantes”. Como acredita que Pasolini reagiria ao tipo de cinema que é feito hoje?

Creio que Pasolini consideraria a maior parte da produção atual como lixo industrial. No período silencioso, ir ao cinema era como ir a um templo sagrado; nos anos de 1930-1950, vivia-se o esplendor do cinema americano (o cinema europeu sofrerá com a propaganda nazi-fascista e a guerra, ressurgindo com o neo-realismo); e nos anos de 1960-1970, com a explosão do cinema autoral em todo o mundo, ir ao cinema significava descobrir um novo universo a cada noite. E tínhamos de escolher num cardápio que incluía os últimos grandes filmes de Bergman, Blasetti, Bolognini, Buñuel, Cavalcanti, Cayatte, Clément, Clouzot, De Seta, De Sica, Hitchcock, Kinoshita, Kinugasa, Kurosawa, Lattuada, Losey, Mizoguchi, Monicelli, Naruse, Ozu, Resnais, Rossellini, Visconti, Wajda, Welles, Wyler, etc.; e os primeiros sucessos de Allen, Altman, Antonioni, Borowczyk, Cacoyannis, Coppola, Cronenberg, Delvaux, Fassbinder, Fellini, Forman, Glauber, Godard, Herzog, Honda, Jancsó, Kümel, Lumet, Lynch, Munk, Oshima, Parajanov, Pasolini, Penn, Petri, Polanski, Pollack, Risi, Rivette, Rosi, Russell, Schlesinger, Schlöndorff, Schroeter, Schmid, Scorsese, Shindo, Skolimowski, Spielberg, Syberberg, Tarkovski, Tati, Truffaut, Wenders, Zanussi, Zurlini, etc. Era muito difícil elaborar a lista dos dez melhores filmes do ano. Hoje também é difícil, mas não pelo excesso, e sim pela falta de grandes filmes. O pior é que nem todos os veteranos remanescentes mantiveram a qualidade: o último filme de Resnais, Medos privados em lugares públicos, por exemplo, é uma bobagem: em plena era da pornografia digital (via cabo, Internet, DVD), os personagens escandalizam-se com strip-teases caseiros gravados em VHS! Atualmente, raros são os autores com idéias novas sobre o mundo, a vida, os homens e a sociedade, ou com idéias novas em cinema. Eu citaria Lars von Trier, Thomas Vinterberg, Aleksandr Sokúrov, Amos Gitai, Pedro Almodóvar, Ang Lee, Yimou Zhang, entre os poucos. O cinema industrial americano encontra-se paralisado pelo sucesso das séries e infantilizado pelas demandas do novo público adolescente que lota as salas. Analisei este problema no ensaio “Pós-modernismo e cinema”, publicado na coletânea O Pós-modernismo, organizada por J. Guinsburg e Ana Mae Barbosa. Os cineastas europeus tentam opor-se aos blockbusters de Hollywood; mas realizam outro “cinema comercial” utilizando os mesmos esquemas dentro de um quadro de pensamento mórbido, neurótico, que torna seus filmes aborrecidos, pretensiosos. Susan Sontag escreveu um pequeno ensaio definitivo sobre o fim da cinefilia e, portanto, do cinema: “Um século de cinema”, incluído no livro Questão de ênfase. É um texto que eu poderia ter escrito, pois penso exatamente como ela. É o que justifica a refilmagem digital de O gabinete do Dr. Caligari por David Lee Fisher, e o retorno à estética do cinema mudo nos intrigantes filmes de E. Elias Merhige e Guy Maddin. Parece-me que o melhor cinema americano hoje é feito nos seriados de TV, como em 24 horas, por exemplo, que ousa abordar o apocalíptico terror moderno e o uso da tortura nas agências que combatem esse terror; a loucura do fanatismo contra o poder americano, e a loucura do próprio poder americano. Outros seriados, como Oz, A sete palmos, L World, etc. abordam a homossexualidade de modo mais aberto e realista que nos filmes de Hollywood, embora O segredo de Brokeback Mountain tenha sido um marco neste sentido. Penso que Pasolini veria este filme com bons olhos, criticando, de resto, as produções correntes do chamado “cinema gay”, dirigida ao gueto homossexual. Pasolini era avesso à mentalidade de gueto. Associava sua homossexualidade a uma visão de mundo revolucionária: seu cinema fugia, assim, à estética realista. A homossexualidade está presente em seus filmes, mas nunca sob a forma de um casal homossexual. Pasolini odiava a forma de vida representada pelo casal burguês, fosse ele heterossexual ou homossexual.

A obra completa de Pasolini só começou a ser organizada, e publicada, recentemente. O que acredita que está mal dimensionado na obra de Pasolini (e aí penso em tudo: poesia, crônica, romance) e que mereceria maior atenção?

Na Itália, muito já se escreveu e se publicou sobre Pasolini. Essa vasta fortuna crítica é desconhecida no Brasil. Aqui, nem a obra literária de Pasolini é bem conhecida, com exceção de O sonho de uma coisa, Teorema, Meninos da vida e Amado meu, e recentemente, da coletânea Ali dos olhos azuis. Seria preciso publicar uma coletânea dos melhores poemas de Pasolini e Uma vida violenta, a meu ver o romance mais realizado de Pasolini. A ensaística pasoliniana é de uma densidade impressionante. Dentro dela, eu destacaria Paixão e ideologia, Descrições de descrições, O empirismo herético, Os diálogos, Escritos corsários, Cartas luteranas – alguns ensaios desses livros foram publicados no Brasil em três coletâneas mistas: Diálogos com Pasolini, O caos e Os jovens infelizes, sem respeitar o formato das edições originais. Penso que Petrolio, apesar de seu caráter inacabado, é um romance que merecia ser traduzido e publicado aqui, por levar as experiências da literatura homossexual de Jean Genet aos limites da pornografia, inaugurando uma pornografia artística, que chegará ao cinema com O império dos sentidos (1976), de Nagisa Oshima, em versão heterossexual. A versão homossexual dessa pornografia artística só chega ao cinema comercial, parece-me, com O fantasma (2000), de João Pedro Rodrigues, um filme português que surpreende pela ousadia. Mas como a pornografia artística heterossexual já estava bem difundida, em filmes como Romance, Os idiotas, etc. aquela outra pornografia não causou tanta polêmica. Certamente, se não tivesse sido assassinado, Pasolini teria sido o primeiro a realizar um filme assim, confrontando em sua época o preconceituoso filme de Oshima. Oriento atualmente uma tese de doutorado, de José Rodrigo Gerace, sobre o tema. Ele está mapeando, desde sua gênese até hoje, a pornografia artística no cinema.

Pretende publicar o livro no exterior?

Claro que gostaria que o livro fosse traduzido, sobretudo para o italiano, e publicado na Itália. E também para o inglês, para o mercado americano e, consequentemente, mundial. Mas isso não depende de mim. Tenho dois contos inéditos no Brasil publicados no site Griselda, da Universidade de Bolonha: Le piazze della pazzia e Quanto costa?, traduzidos pelo mineiro José Pessoa. E um capítulo no livro coletivo Cinema and the Swastika, editado por Roel Vande Winkel e David Welch, pela Palgrave Macmillan. Winkel, professor da Universidade de Gent, é especialista em documentários nazistas; e Welch escreveu um estudo pioneiro sobre a propaganda nazista no cinema, um livro que me guiou na tese de doutorado que desenvolvi na Alemanha. Meu capítulo é um estudo que acredito pioneiro sobre a influência do cinema nazista no Brasil.

Pasolini demonstrava grande preocupação com os rumos que a Itália estava tomando (penso aí no enriquecimento que o país experimentaria: e olha que ele nem viveu os anos 80 que foram os anos onde o país mudou radicalmente). Gostaria que o senhor falasse um pouco disto.

Pasolini havia se radicalizado nos anos de 1970 ao perceber que os jovens do subproletariado que ele tanto amava haviam se convertido em delinqüentes, capazes de tudo para atingir o status de burguês vendido nos anúncios publicitários e na televisão como condição necessária para alguém se tornar “ser humano”. A publicidade e a TV convertiam os jovens burgueses em subproletários mentais enquanto transformava os jovens do subproletariado em burgueses imaginários. Como o jovem burguês imaginário estava (e está) sempre aquém do jovem burguês real (vestindo um jeans da moda, mas de marca inferior; uma camiseta fashion, mas sem griffe, etc.); e como a quantidade de dinheiro acumulada torna-se a única diferença entre as classes, niveladas pela destruição tanto da cultura superior quanto da cultura popular, a solução encontrada pelos subproletários na nova sociedade regida pela cultura de massa era delinqüir. Nascia assim um crime sem limites, uma violência generalizada. O fenômeno que Pasolini chamou de violência de massa é mundial, e em poucos países ele se apresenta de modo tão flagrante quanto no Brasil, onde o crime de massa tornou-se crônico, e tende à guerra civil. Aqui também a cultura superior e a cultura popular desapareceram. Assim como os grandes escritores brasileiros estão no passado, a música popular brasileira deixou de existir. Hoje só existe uma música de massa, pornográfica, chula, berrada tanto pelos jovens pobres e marginais quanto pelos jovens de classe média e alta. A juventude tornou-se animalesca, estúpida, brutal. Sociólogos imbecis defendem o que eles mesmos chamam de narcocultura, uma nova aliança entre as mídias e o narcotráfico. Ouvir o rádio ou assistir à TV requer, de quem ainda se mantém íntegro, um estômago forte como o que se deve ter para ver Salò. Como os prisioneiros do filme de Pasolini, os brasileiros estão se alimentando, simbolicamente, de fezes. Até os jovens mais sensíveis tatuam o corpo, esburacam-no com piercings, argolas, brincos alargadores. Tentam parecer-se com selvagens. Odeiam a cultura humana, e a própria humanidade. Preferem a natureza e os bichos.

Qual a importância de se investigar o assassinato de Pasolini?

O assassinato de Pasolini, no momento em que ele se deu, isto é, quando o cineasta finalizava Salò (o filme mais maldito da história do cinema); denunciava a corrupção de todos os poderes na Itália, não poupando nem a direita nem a esquerda em suas diatribes; propunha o fechamento das escolas primárias e da televisão, para se recomeçar do zero; e anunciava seu retorno ao romance com Petrolio, para desmascarar todos os corruptos, foi evidentemente um crime político, para calar a voz mais perturbadora da vida italiana. Por envolver um grande artista italiano de renome mundial num crime homossexual normalmente reservado às páginas policiais dos tablóides sensacionalistas, o massacre de Pasolini tornou-se um crime misterioso, mítico. Lembra o despedaçamento de Orfeu pelas bacantes (Orfeu havia introduzido a homossexualidade entre os gregos e, com sua lira, a poesia, despertando a ira de muitas mulheres que por ele se apaixonavam). Ou pensando mais politicamente, lembra a decapitação de João Batista… Por sua dança, Salomé pediu em troca, para o rei Herodes, numa bandeja de prata, a cabeça do profeta que a todos perturbava com suas visões da decadência do reino. Ao abafar o crime, recusando-se a investigá-lo a fundo, a Justiça italiana agiu como Herodes, entregando a cabeça de Pasolini à Salomé. Resta-nos saber quem foi a Salomé neste crime, isto é, aqueles que encomendaram o assassinato de Pasolini. Depois que Pelosi, réu confesso, voltou atrás e declarou publicamente não ter sido o único assassino, tendo se incriminado sob ameaça; e da suspeita do cineasta Sergio Citti, de que os mesmos que haviam roubado os negativos de Salò poderiam ter induzido Pasolini a uma armadilha para linchá-lo, tornou-se evidente como nunca que os verdadeiros autores do delito haviam escapado à Justiça. A Procuradoria de Roma foi obrigada a reabrir o processo, mas alegando falta de provas, encerrou-o de imediato. Essa investigação foi arquivada antes mesmo de iniciar-se. Poucas vozes indignadas fizeram-se ouvir contra a nova recusa de esclarecer o crime. A notícia chegou a poucos jornais, dentro ou fora da Itália. Durante os últimos trinta e dois anos foram apagadas as provas, ignorados os indícios, desprezados os testemunhos, desacreditadas as investigações independentes de juristas, jornalistas, intelectuais. Diante da decisão da Procuradoria, a prefeitura de Roma constituiu-se parte ofendida no processo, forçando uma nova investigação. Em 2006, um grupo de artistas e intelectuais, entre os quais Giuseppe Bertolucci, Ninetto Davoli, Gian Carlo Ferretti, Marco Tullio Giordana, Bernard Henri-Lévy, Dacia Maraini, Silvana Mauri Ottieri, Enzo Siciliano, Gianni Biondillo e Angela Molteni, sentiram-se igualmente ofendidos; e publicaram um Apelo à Justiça italiana (que pode ser lido no sítio Il primo amore). Lembravam que o massacre de Pasolini foi “o mais atroz assassínio de um poeta da idade contemporânea, mais torpe que o assassínio de Garcia Lorca, um verdadeiro massacre de grupo, ocorrido em Roma, na Itália, pelas mãos de italianos”. Apesar de todos esses esforços, creio que nada de concreto se obteve, nem se obterá… A morte de Pasolini contém o mistério de sua própria vida.

Você fala no livro do encontro (e amizade) de Pasolini e Glauber. Glauber viveu um período do seu exílio na Itália. Poderia falar um pouco desta relação?

Glauber encontrou-se, pelo que sei, umas três vezes com Pasolini: a primeira, em Roma, em 1965, rapidamente, durante uma projeção privada de Deus e o Diabo na Terra do Sol organizada pelo embaixador Arnaldo Carrillo; a segunda, no Festival de Veneza, em 1967, provavelmente numa coletiva de imprensa; e mais tarde, em Roma, onde foram juntos almoçar num restaurante, único encontro que poderia ser assim definido. Nunca foram amigos. Pasolini demonstrou, em seus escritos sobre cinema, não gostar dos dois únicos filmes de Glauber que viu: Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. Já Glauber escreveu admirativamente sobre o cinema de Pasolini, mas a sua era uma admiração tingida de desconfiança, além de desprezo e inveja pelo estilo de vida do escritor e cineasta italiano. Acusava Pasolini, que ganhava um bom dinheiro com seus filmes difíceis, mas atraentes, de não fazer um cinema de “macho” como o que ele supostamente fazia, e com o qual não conseguia atrair o público e quase nada ganhava. Também acusava Pasolini de “colonizar o sexo dos pobres” na Trilogia da vida, de entregar-se à “sexualidade fascista” em Salò, de “explorar o cu do subproletariado” em sua vida particular. Com essas frases de efeito, Glauber denotava certa homofobia típica do jagunço nordestino, sentimento que a grande atriz e musa Helena Ignez negou existir em seu ex-companheiro, mas que está registrada na entrevista gravada que ele concedeu à revista francesa Cahiers du cinéma pouco antes de morrer. O cineasta baiano, que amava – pelo menos em seu cinema – a força das armas e do povo revoltado, não conseguia identificar no cinema de Pasolini o desejo de poder a que todo macho de esquerda aspira. Mas Pasolini não estava interessado no poder; o que ele amava – em seu cinema e em sua vida – era o sexo vigoroso dos rapazes do povo, a virilidade simples dos corpos populares, a homossexualidade passageira dos camponeses do Friuli, dos marginais de Roma, dos pobres do Terceiro Mundo.

Na entrevista que o senhor deu para um site da 2001 vídeo o senhor afirma: “O que fez Pasolini passar da língua escrita (literatura) para uma mais complexa língua escrita da ação (cinema) foi sua percepção de que, de modo catastrófico, o italiano técnico tornara-se, nos anos de 1960, a língua dominante na Itália”. E esta é uma passagem da vida de Pasolini que me parece bastante intrigante. Pasolini – antes de tudo poeta e escritor – se “transforma” em cineasta. Poderia falar um pouco o que pensa desta passagem?

No início dos anos de 1960, ocorre na Itália o chamado “milagre econômico”, uma recuperação bastante visível do país que fora arrasado na Segunda Guerra. O trauma dos anos do fascismo e da República de Salò; o orgulho da Resistência; o panorama de pobreza, desemprego e humilhação pelo fascismo ainda remanescente após a Libertação foram bem retratados pelo cinema neo-realista do pós-guerra, em filmes como Roma, cidade aberta, Paisà, Ladrões de bicicleta, Sciuscià, Arroz amargo, La terra trema, etc.. Pasolini viveu este período com muito medo de ser fuzilado pelos fascistas, depois de ser convocado pelo exército e ter logo depois desertado. Refugiado em Casarsa, perdeu o irmão, engajado num grupo de Resistência nacionalista, fuzilado por guerrilheiros comunistas, num conflito que envolvia reivindicações do território do Friuli. Depois da guerra, Pasolini engajou-se no Partido Comunista e apoiou a luta dos camponeses, sem pretender, contudo, uma revolução no estilo soviético. Logo foi expulso do PCI por conta de um rumor infamante que o levou a assumir sua homossexualidade publicamente. Com o escândalo, foge para Roma com a mãe, deixando o pai fascista e furioso berrando atrás deles. Neste período, Pasolini era um literato que escrevia, além de peças, ensaios e romances, poemas em italiano e em friulano, valorizando um dos muitos dialetos da Itália, os quais eram proibidos pelo Estado fascista, na meta da uniformização, da coesão, do alinhamento de todos os cidadãos. Em Roma, para sobreviver, Pasolini entra no fim dos anos de 1950 em contato com o mundo do cinema, através do escritor Ítalo Calvino, que já escrevia roteiros, e inicia sua atividade de roteirista. Nos anos de 1960 dá-se uma transformação na Itália, com a recuperação econômica que também colocará um fim tanto às esperanças de uma revolução socialista quanto ao neo-realismo no cinema. Pasolini passa da literatura e da escritura de roteiros para a realização de seus próprios filmes justamente nesta época de transição, de uma cultura política, engajada, humanista, ainda que marcada pelo catolicismo e pelo stalinismo, para uma cultura de massa, consumista, histérica, afastada das antigas ideologias. No contexto, embora seus primeiros filmes sejam influenciados pelo neo-realismo, Pasolini percebe o italiano como língua já corrompida pelo consumismo, que destrói, ainda mais que o fascismo, os dialetos e as diversas culturas regionais em prol de uma única cultura transmitida pelas mídias; e procura fazer de seu cinema uma nova língua para expressar seu amor pela realidade; isto é, pelos jovens e rapazes do povo, registrando com a câmara sua realidade concreta, corporal, sensual, seus gestos característicos, sua fala dialetal, tudo o que percebia estar em vias de desaparecer devido ao que chamou de genocídio cultural: um novo fascismo, pior que o velho fascismo, que não conseguira realizar a unificação total que o consumismo, através dos novos meios de comunicação de massa, estava, sim, conseguindo.

Uma mais genérica: a relação de Pasolini com a esquerda italiana. Poderia falar um pouco desta relação?

Pasolini era um homem de esquerda, “companheiro de caminhada” do Partido Comunista Italiano, mas também do Partido Radical. Contudo, diferia dos homens de esquerda pela forma como chegou ao marxismo: não simplesmente através da leitura de Marx e Gramsci, ou seja, através do pensamento abstrato, mas sim através do seu contato físico com os camponeses do Friuli, de maneira física, corporal, sensual; e só depois através do pensamento abstrato. Por isso suas posições são singularmente concretas frente às posições abstratas da esquerda burguesa dos partidos comunistas e socialistas. E seu pensamento abstrato nunca é puramente abstrato, mas mesclado pelas suas sensações vividas, pelo contato físico direto com os jovens pobres do campo, da periferia das cidades, do Terceiro Mundo.

Na entrevista ao site 2001vídeo, você escreve: Ao reler atentamente o famoso ensaio “Il Cinema di Poesia”, publicado na revista Filmcritica em 1965, percebi que ele usava o termo para definir o novo cinema que via surgir, ao acompanhar os festivais de cinema nos quais seus primeiros filmes eram selecionados. Ele percebia que este cinema podia ser produzido e exibido com certo sucesso graças à existência de um segundo canal de exibição, de um novo mercado basicamente formado por jovens universitários saídos da burguesia, mas que tinham uma visão de mundo supostamente contrária à ideologia de seus pais. Embora seus filmes se confundissem com esse cinema de poesia, em contraste com o cinema de prosa narrativa, cuja linguagem desenvolvida por Griffith, Ford, Hitchcock, Wilder, etc. predominava no chamado cinema comercial, Pasolini não os enquadrava neste conceito. Ele criara o conceito justamente para polemizar contra o cinema de poesia cujos cineastas (Godard, Glauber, Antonioni, Forman, etc.) acreditavam-se revolucionários. Mas esses “revolucionários” eram, a seu ver, burgueses em sua vida e na vida reproduzida em seus filmes, apenas se beneficiando deste segundo canal de exibição, ou seja, fazendo filmes comerciais para uma elite intelectual, que os consumia como produtos “revolucionários” contra a ideologia burguesa de seus pais. É o mesmo sentido que deve ser procurado no poema “O PCI aos jovens!”, no qual Pasolini alertava que os jovens revolucionários de 1968 eram os empresários de amanhã e que sua simpatia pendia para os policiais apedrejados que eram os pobres de sempre… Pasolini, que não levava uma vida burguesa e não fazia um cinema comercial nem um cinema revolucionário entre aspas, tinha consciência do que fazia e da vida objetivamente revolucionária que levava; e que o levaria a ser assassinado. Ele desejava que seus filmes (eu os chamaria de cinema de prosa poética, pois não se identificavam nem com o cinema de prosa narrativa, nem com o cinema de poesia) fossem vistos pelo que eram: cinema hermético, aristocrático, dirigido à elite intelectual, revolucionário por sua dimensão erótica, mítica e antropológica — sua Grande Recusa da sociedade industrial. O que chama atenção é a impressionante atualidade e o tom profético da obra de Pasolini. Poderia falar um pouco mais disto?

Pasolini estava muito à frente de seu tempo, porque percebia as mudanças sociais no contato direto e cotidiano com aqueles corpos que, dentre todos, eram os que estavam sendo mais submetidos à mutação antropológica operada pela sociedade tecnológica. E ainda vivia num país tão rico em culturas particulares que essa uniformização se tornava ainda mais dramática e desesperadora. Antes mesmo de Pasolini, ainda nos anos de 1950, o filósofo Herbert Marcuse havia previsto essas mutações no livro A ideologia da sociedade industrial. Foi quem primeiro anunciou a gestação da sociedade unidimensional: uma sociedade tecnológica sem dimensão crítica nem possibilidade de oposição, pela integração dos proletários no consumo em massa, que transformava os antigos “sujeitos revolucionários” de Marx em fiéis mantenedores do status quo, que os beneficiava como nunca antes. A originalidade de Pasolini foi viver essa percepção em seu corpo e exprimi-la com toda sua força poética. “Eu não sei nem como nem quando, mas alguma coisa de humano acabou”, escreveu num poema. E ainda: “A morte não é não poder mais comunicar-se, é não poder mais ser entendido”. Em outro momento, afirmou: “Eu daria toda uma multinacional em troca de um único vaga-lume”, observando que a poluição industrial exterminara os vaga-lumes, que iluminavam os campos de sua juventude.

Por fim gostaria de falar um pouco do legado da obra dele

Pasolini deixou-nos mais de 16 mil páginas de literatura, em todos os gêneros. Mas neste corpus de Tutte le Opere do escritor, recentemente publicadas pela Mondadori em dez volumes, faltam seus 26 filmes, além das inúmeras entrevistas que concedeu para a rádio e a TV. É que Pasolini era um autor multimídia, cujas obras completas deveriam ser reunidas não apenas em livros, mas também em DVDS. No futuro, isto deverá ser feito com autores como ele. Homossexual revolucionário, Pasolini era avesso ao movimento gay, que considerava burguês. Nas emocionadas e emocionantes palavras que o escritor Alberto Moravia, seu melhor amigo, proferiu em suas exéquias, ele declarava que o mundo perdia o maior poeta italiano do século XX: “Mataram um poeta! Um poeta não nasce todo dia! Um poeta nasce a cada século! Pasolini era o maior poeta italiano deste século!”. E eu diria que ele foi um grande poeta não apenas em seus poemas, mas também em seus filmes e mesmo em seus ensaios. Era um pensador libertário que escreveu com emoção e originalidade sobre a totalidade do mundo; um cineasta que marcou, com sua divinização do real, a teoria e a prática do cinema; um polemista implacável que, na contracorrente dos intelectuais hipócritas e conformistas, desnudou os horrores do crescimento econômico, que destrói o mundo humano e gera, ao lado da riqueza, uma insuportável violência de massa. Crescimento econômico sonhado por todos, tanto pelo poder de direita, sem ética, corrupto, falsamente tolerante, que oferece o sexo e o consumo compulsórios como paliativos à destruição,  quanto pelas oposições de esquerda, igualmente sem ética, corruptas, deslumbradas com os avanços tecnológicos.

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